April 23rd, 2011

rosas

mr joe black

As férias e o facto de estar a ficar um velho desmiolado explicam, mas não justificam, o facto de eu me ter esquecido de registar aqui o concerto a que assisti na sexta-feira passada, fez hoje oito dias, no TAGV: Mr. Joe Black, uma personagem algures entre o crooner da cabaret (os acordes do piano estavam-lhe sempre a fugir para esse lado) e um desenho animado do Tim Burton, com uma voz que começava nos falsetos à Antony e acabava na rouquidão do Tom Waits.

Pelos vistos o Mr tinha passado há uns meses por Coimbra, na oficina municipal do teatro, e fez sensação, de modo que decidiu regressar para uma audiência maior. Faltaram ao concerto (recital será a expressão mais adequada, julgo), na minha opinião, algumas das versões que MJB tem no YouTube, nomeadamente da Madonna, da Britney, e da Creep, dos Radiohead (e de facto esta canção faz tanto o género dele). A parte mais interessante da performance foi o humor muito provocador e que está sempre a passar a linha do politicamente correcto e do conveniente.
rosas

tournée 4*

Tournée, realizado pelo actor Mathieu Amalric é o tercero filme francês que vejo em pouco tempo. E ainda bem porque significa que podemos ver nas salas outro cinema sem ser o americano. E porque é sempre bom podermos ver outras narrativas, outras maneiras de olhar, e até outras paisagens.

Este filme de Amalric é fabuloso, um coup de foudre, na sua honestidade, na sua verdade, até no seu desamparo. Trata-se da história de um produtor de espectáculos que, depois de uma temporada americana, decide regressar a França, e a Paris em particular, para se vingar de quem o obrigou a partir. E fá-lo em grande: um espectáculo de 'novo burlesco', uma mistura de strip-tease com farsa musical, abrilhantado por um elenco de avantajadas raparigas. O filme conta as andanças deste exótico grupo numa digressão pela costa francesa enquanto Joachim, o produtor, tenta deseperadamente conseguir uma sala em Paris, para aí levar o espectáculo e o servir, gelado, aos seus detractores. Percebemos que as coisas estão a correr mesmo mal quando ele começa a suplicar uma sala a esses mesmos detractores de quem se quer vingar através do sucesso.

O resultado é uma espécie de road movie que balança entre o desespero de Joachim, da sua precaridade de fonâmbulo em dia mau, e o excesso das meninas, a forma avantajada como o seu jogo transborda do palco para os lóbis dos hotéis por onde vão deambulando. É este tom agri-doce, e a percepção de que a viagem de Joachim não leva a lado nenhum, mas é boa enquanto dura, que nos comove em absoluto e nos desperta uma imensa ternura por todas estas personagens.

Além disso Mathieu Amalric filma com uma honestidade desarmante, mesmo que (ou até por isso) por vezes tudo pareça um pouco ingénuo. Parte dessa honestidade reside nas suas escolhas: o cast do burlesco são verdadeiras actrizes desse género, os seus números foram criados pelas próprias intérpretes, e foram gravados em verdadeiros espectáculos ao vivo, e a proximidade electrizante da performance ao vivo está bem presente nessas sequências.

Um filme muitíssimo divertido, mas com aquele tom amargo que nos aperta o coração, foi uma surpresa fantástica. E o Mathieu Amalric é um actor muito bom, com um jogo leve e profundo, deslizante e intenso. Há muito poucos actores assim, hoje em dia.