April 15th, 2011

rosas

a india por um canudo

Desde 2004 que todos os anos na Páscoa tenho feito uma viagem grande, normalmente a lugares longínquos. Fui, por ordem, à Argentina e ao Brasil, ao Egipto, ao México, a Moçambique (pela segunda vez, tinha lá ido em 2003), ao Vietname, à Guatemala, e o ano passado à Síria e à Jordânia. Tirando esta última, que correu mal porque passei o tempo todo doente, foram viagens fabulosas. Foram viagens em grupo, mas sempre com um grupo mais ou menos fixo, ou pelo menos em que muitas pessoas se conheciam, e depois das duas primeiras em que eu era um outsider, um dos gozos destas viagens tem sido precisamente o de viajar com amigos, com pessoas que já conhecemos e que já nos conhecem, sempre com um clima de boa disposição, e em que as histórias que sempre ficam das viagens passadas aumentam o prazer de viajar com estas pessoas. Algumas dessas pessoas, estou a pensar em duas em particular, contam-se hoje entre os meus principais amigos, e o facto de vivermos muito perto, em Coimbra, potenciou que estabelecessemos uma relação, de amizade, que passou das viagens e hoje é de todos os dias.

Na madrugada de ontem os meus amigos partiram para mais uma viagem, e desta vez eu não fui. E logo à Índia, um dos lugares que eu mais desejava conhecer, ainda por cima com uma extensão de três dias a Goa, que é um daqueles lugares que me são absolutamente mágicos. Tinha tomado, já há muitos meses, a decisão de que este ano não podia ir na viagem. Por diversas razões, uma delas, a mais óbvia, é o dinheiro. São sempre viagens muito caras e este ano, com os cortes salariais, o aumento do custo de vida e dos impostos, e as despesas acrescidas que tenho por razões familiares, as finanças domésticas estão, se não complicadas (é preciso não perdermos a noção das proporções, e eu sei que, do ponto de vista financeiro, estou na parte de cima da cadeia alimentar), pelo menos a merecer alguma prudência.

Mas se as razões económicas são importantes, não foram decisivas na minha decisão de este ano não ir. Uma das razões porque o ano passado passei tão mal na viagem, teve a ver com o stress imenso que senti, quer no período antes da viagem, quer durante ela. Pesava-me muito na consciência deixar os meus pais aqui sozinhos, sem ninguém em quem eu confiasse o suficiente para me sentir seguro de que eles ficavam bem, e se houvesse algum problema, haveria alguém com capacidade para tomar decisões. Apesar de haver duas senhoras que os acompanham durante grande parte do dia, são pessoas sem grande capacidade de decisão, como é natural, e que me telefonam ao mínimo sinal de alarme. Senti-me muito dividido, entre a vontade imensa de ir viajar (e logo à Síria, que era um desses lugares que eu desejava febrilmente conhecer), e até a necessidade de me afastar ao menos por uns dias (e a viagem do ano passado culminou um período péssimo do ponto de vista da saúde dos meus pais, um verdadeiro annu horribilis, como dizia a outra) e descansar a cabeça, e a insegurança enorme que me causava deixar os meus pais sozinhos. Conclusão, as coisas correram mal, não para os meus pais, felizmente, mas para mim, que passei umas férias de cão, sempre com vontade de morrer e ir para o céu.

A viagem do ano passado foi tão má, para mim, que fiquei traumatizado, e essa foi outra das razões que me ajudaram a tomar a decisão. Um tipo estar super ansioso para fazer uma viagem de sonho, gastar uma pipa de massa, e depois passar o tempo todo com vontade de trocar tudo o que tem por uma viagenzinha de avião que o pusesse em sua própria casa, na caminha e a beber cházinhos, não é propriamente uma ideia feliz. E como sabia que me ia ansiar outra vez com esta situação familiar, não queria correr o risco de chegar à Índia e voltar a acontecer-me outra vez a mesma coisa.

Há ainda outra razão. Nos últimos anos os programas das viagens têm sido muito intensos e cansativos, sempre a entrar e a sair dos autocarros, a ver tudo e mais alguma coisa. Ok, isso à partida até é bom, porque conhecemos e visitamos mais coisas, mas eu gosto de ter tempo, nas minhas viagens, para o poder perder. O que sempre mais recordo das viagens que fiz, não foram as correrias atrás de monumentos e museus, foram precisamente essas horas de ‘fare niente’, de estar nos cafés entre as multidões, ou a passear pelas ruas, ou visitar os mercados. Lembro-me com prazer das duas horas que passei, à conversa com um companheiro de viagem, na esplanada de um lodge em plena selva do Iucatão da Guatemala, a beber gin tonics e a ouvir o rugidos dos macacos nas árvores em volta. Ou de estar deitado, à noite, no convés de um barco de cruzeiro a subir o Nilo, a olhar e identificar as constelações. Ou, ainda ontem falei nisso, de passar tardes imensas nos cafés de Praga ou de Viena, à conversa (no café de Praga com a vantagem de haver música ao vivo). Isso é o que se traz das viagens, essa sensação de estarmos no mundo, e não a de apenas o vermos numa correria.

Apesar de ter tomado a decisão de, por todas estas razões, não ir na viagem à Índia, não estou arrependido. Acho que tomei a decisão certa, ou pelo menos a que me pareceu a mais adequada, e quando achamos que tomámos a decisão mais adequada, mesmo que no fim ela se revele errada, nunca há razões para arrependimentos. Mas que estou aqui torcidinho de inveja dos meus amigos que se foram embora ontem de madrugada, ai isso estou. Até disso, das noites sem dormir, das saídas de madrugada, dos primeiros momentos das viagens, das azáfamas e das confusões dos aeroportos, sempre cheios de tensão e ansiedade, mas também de promessas. Mas como as coisas são o que são, para compensar um dia destes agarro nos meus pais e vamos passar uns dias a um sítio onde me sinto sempre bem. Espero é que o tempo se mantenha assim bom na próxima semana.