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city boy
rosas
innersmile


City Boy é mais um volume auto-biográfico da autoria de Edmund White, um dos meus escritores preferidos. Tal como My Lives, trata-se de um livro de memórias, desta vez focalizado na vivência nova-iorquina do autor, durante os anos 60 e 70. De modo geral o livro organiza-se em torno de encontros de White com pessoas que foram influentes na sua vida. De um modo geral são escritores, mas nem todos (Robert Mapplethorpe, para dar um exemplo, não era), e se há um fio condutor neste volume é o trajecto de White para se tornar ele próprio um escritor publicado. O outro grande vector do livro é a sexualidade, ou mais correctamente a sexualidade homossexual masculina, quer enquanto percurso individual (White assume-se, sem remorso nem contrição, como um promíscuo), quer na forma como a homossexualidade era vivida nessas duas décadas especiais, quer, finalmente, no trajecto pelo reforço do direito à sexualidade dos gays, sobretudo no processo pós-Stonewall. Edmund White foi um protagonista dos principais eventos que marcaram o início do movimento de reivindicação dos direitos dos homossexuais (estava em Christopher Street, no Stonewall, no momento dos confrontos com a polícia), e o livro é igualmente testemunho do seu próprio processo de consciencialização identitária. White, de resto, não deixa de ligar o facto de ter descoberto a sua voz de escritor com o facto de ter descoberto que a parte da sua experiência humana que fazia sentido contar enquanto escritor estava directamente ligada à sua sexualidade.

O livro está cheio de histórias, de gossip, até de alguma maldadezinha, mas o que sempre surpreende em Edmund White é a sua candura, o modo como se expõe, e como nunca se furta ao juízo, quer dos outros, quer de si próprio. E a escrita do autor é, como sempre, muito simples e directa. Também aqui White defende uma teoria interessante: enquanto os seus colegas contemporâneos heterossexuais, cuja experiência pessoal era partilhada pela maioria das pessoas, precisavam de se refugiar no estilo para descobrirem a singularidade da sua voz autoral, aos escritores homossexuais bastava-lhes, para serem originais, contarem a sua própria experiência, justificando deste modo o facto de a sua escrita ser escorreita e simples.

Gosto tanto dos livros do Edmund White, que me parece sempre que o último livro que leio dele é sempre o melhor. Lê-los é sempre uma experiência divertida, e é sempre uma maneira de crescer um bocadinho.
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