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nobre povo?
rosas
innersmile
A única coisa divertida da política portuguesa nos últimos tempos foi a decisão de Fernando Nobre de concorrer nas eleições legislativas de 5 de Junho como cabeça de lista do PSD por Lisboa. E não quero ser mauzinho, mas o que foi divertido foi ver, à medida que a notícia ia alastrando na tarde e noite de Domingo, as reacções, entre a desilusão e a ira, daqueles que apoiaram a sua candidatura nas últimas presidenciais. Não se pode dizer que tenha sido o fim da inocência, foi antes o preço da ingenuidade.

Não critico a decisão de Nobre de concorrer nas listas do PSD. Acho que o privilégio da democracia também é esse, o das pessoas não estarem amarradas aos partidos e poderem apoiar e vestir a camisola de projectos em que acreditam. Mas deploro a superioridade moral que Nobre gosta de arvorar em relação aos partidos e aos (outros) políticos. Não acredito em salvadores da pátria, em iluminados. Se como dizia o Padre Américo, não há rapazes maus, também podíamos dizer que em política não há rapazes bons. Todos são capazes do melhor e do pior, e cavalgar o descontentamento das pessoas em nome de uma abstracção bem intencionada, não passa de uma forma de populismo. Ou, o que é pior, de messianismo.

Espero que ao menos este episódio nos ensine alguma coisa. Por exemplo, que a democracia tem regras, e que essas regras são, em si, formas de garantia da própria democracia. A regra de que a política se faz através dos partidos, por exemplo. Não adianta bradar que os políticos são todos maus, porque eles não são outros, não são uma sub-espécie infra-humana, não são um bando de piratas mal-intencionados. Os políticos que temos, somos nós. Andaram connosco na escola, são primos e cunhados de gente como nós, não são piores, por exemplo, do que as pessoas que enchem as páginas de comentários dos blogs e dos jornais. Se achamos que estamos mal-servidos de políticos e de partidos, temos uma alternativa: saltamos para o comboio e vamos lá mostrar o que valemos.

Não sou, obviamente, contra os movimentos espontâneos da sociedade civil. Pelo contrário, acho que um dos males da vida política e social portuguesa, é termos tão pouco espírito colectivo. Esta falta de vocação para a comunidade tem muito a ver com um certo atavismo de que sofremos há muitos séculos. Mas há inúmeras maneiras, e tão ou mais ‘nobres’ (trocadilho intencional) do que a política, de intervirmos na vida colectiva e comunitária. Quando queremos levar para a política formas de voluntarismo cívico, em nome de um qualquer imperativo de cidadania (legitimado não se sabe como), o risco é, de novo, ficarmos reféns de messias mais ou menos populistas, mais ou menos oportunistas, mais ou menos perigosos.

Seria bom que esta decisão de Fernando Nobre de participar nas eleições nas listas de um partido político significasse que ele próprio tinha chegado a esta conclusão.
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