April 10th, 2011

rosas

a different light

Em Abril de 1994 participei numa viagem profissional aos Estados Unidos. Éramos, entre profissionais e acompanhantes) cerca de 50 pessoas (lembro-me de que viajávamos em dois autocarros) e fomos a Nova Iorque, Washington (ligação por autocarro), São Francisco e Salt Lake City. Foi uma viagem extraordinária, com um programa muito apertado, e também muito diversificado, do ponto de vista profissional, mas também com uma componente turística. Na parte profissional participavam apenas os profissionais, é claro, e na parte turística e social participava todo o grupo.

No dia em que chegámos a São Francisco, ao princípio da tarde, e depois de passarmos pelo hotel (um Holliday Inn, se não estou em erro, ao fundo da Columbus, perto de Fisherman’s Wharf) para largar as bagagens, fizemos um tour pela cidade, que percorremos de lés a lés. Sem comentar nada com ninguém tomei nota dos sítios onde queria voltar. Na manhã seguinte estava programada uma visita profissional, com reunião do grupo todo depois do almoço, para irmos a San Jose, no extremo sul da baía de São Francisco, ter um encontro, com jantar, com elementos da comunidade luso-americana da cidade, creio que a maior da Califórnia.

De manhã comuniquei, sem dar azo a conversas, ao meu colega de quarto que não ia participar na visita da manhã, e que me encontrava com o grupo depois do almoço. Esperei que passasse o hora da saída do grupo, tomei um pequeno-almoço rápido, e saí do hotel. Subi a Columbus toda a pé (não sei quantos quilómetros, mas hão-de ser muitos), e depois ainda subi até Market Street para tentar apanhar um autocarro. Como o tempo não era muito, tinha de pensar depressa. Entrei numa estação de metro e decidi ir para Mission Dolores, a estação mais próxima do meu destino.

Quando saí para a rua estava completamente desorientado. Tentei perceber para onde queria ir, mas ao fim de uns quarteirões percebi que continuava perdido e decidi regressar outra vez para a estação do metro. Foi já muito perto desta que um tipo, de aparência indiana, ao ver-me metido na entrada de um prédio a consultar o mapa, veio ter comigo a perguntar se precisava de ajuda. Disse-lhe para onde queria ir, e ele indicou-me a direcção, depois de me tentar convencer a ir de autocarro e de um bocado de conversa.

Mais uma caminhada, por uma zona residencial, e finalmente cheguei a Castro Street, o principal centro da comunidade gay em São Francisco, eventualmente um dos mais conhecidos do mundo. Andei a passear por Castro acima e Castro abaixo, ainda calma, de manhã, mas já com uma azáfama razoável, mas sempre a controlar o tempo. Quando vi que eram horas de começar a regressar, pus-me a pensar que devia comprar qualquer coisa para poder marcar a minha passagem pela zona, para poder dizer (a mim próprio, na altura estava completamente armarizado!) “já estive em Castro e a prova está aqui”.

Ainda havia muitas lojas fechadas, não fazia sentido comprar roupa, por isso procurei a livraria A Different Light, e entrei. Esta livraria é muito famosa, é um marco da comunidade que tem o seu epicentro em Castro. Comprei uns pins (que não tenho bem a certeza onde estão) e pus-me à procura de um livro para trazer. Na altura o meu conhecimento de literatura gay ainda era muito limitado, apesar de já frequentar as livrarias londrinas e de já ter começado a comprar e a ler livros sobre o tema.

Como estava a ficar sem tempo, procurei na estante das novidades e comprei um hardback com uma espécie de autobiografia escrita a duas mãos por uma casal de desportistas que se tinham assumido, e de quem me lembrava ter visto um ensaio fotográfico numa Photo, feito, se não me engano, pelo Herb Ritts. Paguei o livro, e subi a rua em direcção a Market, passando à frente do famoso Castro Theatre, que aparece no Milk, acho eu. Atravessei Market, apanhei um táxi, e regressei ao hotel a tempo de ir ao quarto guardar o livro, mudar de roupa, comer qualquer coisa num café ali perto e juntar-me ao resto do grupo.

Um dia destes, li num blog que a livraria A Different Light está na iminência de fechar. Já encerraram as lojas de Nova Iorque e de Los Angeles, e a de Castro, que existe desde os anos 70, irá encerrar brevemente. Apesar de, segundo li, se ter virado nos últimos anos para outras formas de entretenimento (filmes e livros porno, sobretudo), é mais uma vítima da crise que está a provocar o encerramento de muitas livrarias, sobretudo das mega-lojas das grandes cadeias (a Borders já encerrou mais de metade das suas lojas - até me dá vontade de chorar, eu adoro a Borders), em consequência da popularização dos e-books, e da generalização do comércio on-line.

Eu pecador me confesso: há mais de 10 anos que faço compras on-line, sobretudo de livros. O primeiro site da internet que me lembro de visitar, no computador do meu irmão no escritório dele na oficina onde trabalhava, foi, para aí em meados dos anos 90, o da Amazon americana, a única que havia na altura. E também sei que o que está a começar a acontecer com o negócio dos livros, foi o que aconteceu com o dos discos, já fecharam as gigantescas lojas de discos que havia, por exemplo, na Oxford Street de Londres. As lojas de discos que subsistem são as que se dirigem a nichos de mercado, que se especializam. E provavelmente é o que vai acontecer com as livrarias, para grande, enorme, enormíssimo desgosto meu, que há poucos prazeres que compitam com o de passar horas a vasculhar as estantes das livrarias.

Entretanto vou ali à estante olhar para o livro que, desaparecida a livraria onde o comprei, ainda ali está a assinalar na minha memória essa extraordinária manhã que passei sozinho em São Francisco.



Como não tenho nenhuma foto da Castro e da Different Light, fiz este printscreen no GoogleMaps.