April 5th, 2011

rosas

lost in translation

Na edição deste mês de Abril da revista Ler, na sua habitual crónica Heterodoxias, o Eduardo Pitta fala de escritores e poetas que continuam a não ser publicados em Portugal, e refere, entre outros, o James Merrill. Achei curiosa a coincidência, porque a semana passada tinha aqui um texto sobre o autor de Lost In Translation, e depois decidi apagá-lo precisamente porque, pela sua extensão, não fazia sentido pôr aqui esse poema, e sem poema o texto não tinha sentido ou utilidade. Na sua crónica o EP refere que o poema serviu de inspiração a Sophia para o seu filme com o mesmo título. Já me tinha lembrado dessa possibilidade e andei furiosamente na net à procura de uma ligação entre o filme e o poema, mas não encontrei nenhuma.

Umas semanas atrás tinha visto um texto sobre o James Merrill no blog Band of Thieves (link) e, reconhecendo vagamente o nome e curioso pela pequena nota no blog, pus-me a pesquisar na net. Até que cheguei ao referido poema Lost in Translation, que é lindíssimo, uma longa narrativa sobre isolamento e solidão (ligação com o filme da SC?) a partir de uma recordação de infância: Merrill, entregue pelos pais aos cuidados de uma preceptora (que lhe ensinou a falar francês e alemão), espera a chegada de um puzzle encomendado numa loja de Nova Iorque; quando o passatempo finalmente chega, ele a preceptora passam longas horas a completá-lo (“Mademoiselle does borders”).

Entretanto estou a ler City Boy, mais um volume de memórias do Edmund White, desta vez dedicadas à vivência do autor em Nova Iorque durante as décadas de sessenta e setenta. O foco do livro é, sobretudo, o relacionamento de White com vários escritores e outras figuras do mundo literário, de quem foi amigo, enquanto procurava, ele próprio, descobrir-se e afirmar-se como escritor. Um capítulo inteiro do livro é dedicado a James Merrill, com, ou não se tratasse do Edmund White, profusão de pormenores acerca da sua vida sentimental e sexual.

Merrill era riquíssimo, e parte da sua fortuna consumia-se a apoiar financeiramente escritores jovens ou pelo menos desprovidos de recursos materiais, e a pagar borlas aos amigos. O pai de Merrill foi fundador de um banco, o que leva o Stephen, do Band of Thebes, a afirmar que James Merrill foi uma das dádivas da banca ao mundo. O Edmund White, que é mais mauzinho, diz que o James Merrill é a prova de que nem só coisas más provêm da banca.

Não é difícil encontrar o poema na net, bem como algumas páginas que se dedicam a analisá-lo. Deixo aqui, passada a epírafe (em alemão), a primeira estrofe:

«A card table in the library stands ready
To receive the puzzle which keeps never coming.
Daylight shines in or lamplight down
Upon the tense oasis of green felt.
Full of unfulfillment, life goes on,
Mirage arisen from time's trickling sands
Or fallen piecemeal into place:
German lesson, picnic, see-saw, walk
With the collie who "did everything but talk"—
Sour windfalls of the orchard back of us.
A summer without parents is the puzzle,
Or should be. But the boy, day after day,
Writes in his Line-a-Day No puzzle.»