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A Vida e As Opiniões do Cão Maf e da Sua Amiga Marylin Monroe, de Andrew O'Hagan, cuja leitura terminei há dias, é um livro surpreendente. É-o, em primeiro lugar, pela sua premissa narrativa: um olhar sobre um dos grandes mitos do cinema e da cultura popular do século XX a partir do seu animal de companhia - o narrador é de facto um cão que foi oferecido a Marylin por Frank Sinatra em 1960, e que Marylin estimou até à data da sua morte. Só a peculiaridade desta proposta, um olhar simultaneamente íntimo e externo, bastava para tornar o livro interessante. Mas o livro surpreende sobretudo por ser capaz de sobrepor vários planos narrativos, uns mais ficcionais outros mais ensaísticos, que não só convivem de forma pacífica, mas que se vão alternando no texto, que passa de uns para os outros sem soluções de continuidade que quebrem a sua fluidez, e sobretudo o prazer da leitura.

Em primeiro lugar, há as próprias peripécias da narrativa, os acontecimentos, a vida na faixa rápida das estrelas de cinema e outras celebridades, os encontros, as viagens, as bebedeiras, tudo visto da perspectiva, curiosa mas também muito cool, de um não-humano. Muito colado a este, há depois o plano da reflexão sobre o cinema, e sobretudo sobre o papel dos actores, das estrelas de cinema, a necessidade de construir uma personagem pública autónoma, que proteja mas também revele a personalidade do actor. Estamos já aqui muito próximos de um olhar sobre a psicologia de Marylin, do seu esforço por descobrir e construir a personagem da estrela, e dos efeitos colaterais desse esforço na pessoa de Norma Jean. O plano, agora, já é claramente íntimo, e o livro revela, de maneira delicada e subtil, uma solidão que, por estar no topo do mundo, não deixa de causar angústia e sofrimento. O autor usa de maneira hábil a informação que nós, leitores, detemos acerca da biografia de Marylin Monroe, nomeadamente no que respeita à sua morte, para dar eficácia este retrato.

Num outro plano distinto, o livro é uma espécie de inventário do papel dos cães na literatura, traçando, ainda que de forma breve, retratos impressivos de alguns canídeos famosos e do papel que tiveram na obra dos seus donos. Abundam, além disso, as referências a filósofos e outros homens de cultura (Maf tem uma especial predilecção por Trotski, e estabelece um profícuo diálogo com Freud) que reflectiram e escreveram sobre a relação entre os homens e os cães.

Há finalmente o plano do próprio texto, da circunstância de o narrador ser um animal, um cão, e o livro leva muito a sério essa perspectiva, nomeadamente nos diálogos com os outros representantes do reino animal, e no olhar, curioso mas complacente em relação às excentricidades específicas da espécie, que deita sobre os seus companheiros humanos.