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Há as divas, há as lendas, há os mitos. E depois, há Elizabeth Taylor.

Liz Taylor era a estrela que restava de um tempo que as estrelas eram o sistema que alimentava Hollywood e, por mero efeito derivativo, o mundo todo, ou pelo menos o mundo onde havia um ecrã gigante onde se projectava um raio de luz. Liz Taylor era a própria matéria de que os sonhos são feitos, e também a de que os sonhos se alimentam. Nascida em Inglaterra, mas filha de pais americanos, Liz apareceu peça primeira vez nos ecrãs aos nove anos de idade. Durante a adolescência, ao lado de Mickey Rooney ou Roddy McDowall, foi um verdadeiro ídolo das matinés, em fitas da Lassie ou na adaptação do clássico Mulherzinhas.

Durante os anos 50 foi the belle of the ball, entrando em dramas, comédias românticas, fitas de aventuras, filmes de época, enfim, tudo o que os estúdios produziam para fazer as massas correrem a encher as salas gigantescas, estivessem elas em Nova Iorque, em Lisboa ou em Lourenço Marques. Fez tantos filmes que, pelo meio, até deu para fazer clássicos: Gigante, Gata em Telhado de Zinco Quente ou Bruscamente no Verão Passado, tendo contracenado com os mais belos do tempo: Rock Hudson ou James Dean, Paul Newman ou Montgomery Clift.

Em 1960 embarca numa aventura desmedida, Cleopatra, um projecto megalómano dirigido por Joseph L Mankiewicz. Megalómano e amaldiçoado, o filme demorou anos até chegar às salas, foi arrasado pela critica e apesar de ter sido um dos blockbusters da época, as receitas não chegaram para pagar os custos, e a Fox foi financeiramente arrasada pela brincadeira. Eu adoro o filme, é daqueles que vejo e revejo continuamente. Foi também no set de Cleopatra que Liz Taylor conheceu Richard Burton, o actor inglês com quem ela viveria um romance tórrido, que se espalhou por quase duas décadas e dois casamentos, sempre no olho do furacão mediático. Os filmes começaram a mudar durante os anos 60, e de algum modo Liz Taylor era demasiado grande para o cinema que Hollywood produzia na época que marcou o estertor do 'studio system'. Apesar disso, foi nesta época que fez dois filmes que se lhe colaram à pele: Quem Tem Medo de Virgínia Wolf e Reflexos Num Olho Dourado, este último realizado por John Huston, em que Liz Taylor faz a esposa adúltera de um militar de carreira, interpretado por Marlon Brando, atormentado por um reprimido desejo homossexual.

Mas para além do cinema, Liz Taylor era uma mulher dos media, das passadeiras vermelhas, das revistas de mexericos. E usou todo o seu poder mediático para tentar chamar a atenção para as causas em que acreditou. Em 1985 a Sida era considerada uma doença dos homossexuais, e por isso não justificava nem o interesse dos meios científicos nem o financiamento das autoridades governamentais. Quando Rock Hudson, seu amigo e com quem contracenou em Gigante, morreu vítima da Sida, Liz Taylor foi a primeira figura pública a assumir a causa em favor da investigação clínica sobre a doença, e, por extensão, a tornar-se uma amiga da luta pelos direitos dos homossexuais.

Mas com Liz Taylor passa-se um daqueles casos em que a biografia, mesmo sendo extraordinária, é sempre curta para explicar a natureza e a dimensão do fenómeno. Dizer que Liz tinha star quality é, claramente, um under-statement. Com a sua morte hoje, aos setenta e nove anos de idade, há claramente um mundo que acabou. Mas que sempre perdurará enquanto houver um foco de luz a iluminar o mais fulgurante par de olhos que já nos olhou a partir de um ecrã gigante.