March 22nd, 2011

rosas

rainha dos céus

Ainda hoje de manhã assinalei na minha resposta ao censo de 2011 que não tenho religião. Há aspectos na religião católica, a que conheço melhor e que está mais perto de mim, que me desgostam profundamente, e outros que me irritam muito. Mas deixando de lado todas as grandes questões levantadas pela religião, também há uns poucos aspectos, muito poucos, que me comovem. Comove-me a fé das pessoas. Comovem-me os ritos. Apesar de raríssimamente pôr os pés numa missa, sou capaz de acompanhar muitas das fórmulas e dos rituais. Sei alguns de cor. E há uns poucos que me comovem sempre que os ouço, e que me fazem ter vontade de ter fé. Sempre que ouço o padre dizer "este é o cordeiro de deus que tira os pecados do mundo", apetece-me chorar. Ou quando ele diz "senhor, eu não sou digno de que entrais em minha morada, mas dizei uma só palavra e eu serei salvo", apetece-me tirar a camisa, dá-la a um pobre, e partir para a Índia morrer de uma doença estranha.

Tudo o que diz respeito a Fátima me deixa profundamente indiferente, aliás, até me provoca uma pequena repulsa. Não há nada que me comova no 13 de Maio, acho aquilo tudo uma fantochada, e de mau gosto, ainda por cima. Abomino os sacrifícios (mas gosto das peregrinações), a beatíce do comércio religioso, mas sobretudo o ar de impostura que tudo aquilo tem. Em Fátima nem sequer os rituais me atraem, não os acho bonitos, nem intensos, os hinos são pindéricos e sensaborões.

Mas, enfim, nem todos. Um dos hinos da Nossa Senhora de Fátima, Miraculosa Rainha dos Céus, tem esse pendão de me comover muito. Conheço-o desde pequenino, desde os tempos da catequese e da primeira comunhão na catedral de Nampula, e desde essa altura que gosto dele, que sei a letra quase toda de cor, nunca me esqueci. Não é dos mais conhecidos, e como é raro ouvi-lo, de vez em quando pedia à minha mãe para o cantarmos juntos: para não me esquecer, mas também só pelo prazer de o ouvir e cantar. Também não me esqueço de que havia uma versão deste hino no célebre Cancioneiro do Niassa, o conjunto de canções, umas originais, a maior parte adaptadas, que eram cantadas em sinal de protesto e como expressão do mau-estar que sentiam, pelos soldados do exército português colonial nos teatros de guerra em Moçambique (onde o refrão terminava assim: "faz com que a guerra se acabe em Mueda, tira-me daqui que eu estou farto desta merda").

Aqui há uns anos, a Isabel Silvestre, a voz principal do Grupo de Cantares de Manhouce, editou um cd cheio de belas canções, e com uma produção fantástica, creio que do João Gil. O disco está cheio de pérolas, uma delas, que dá nome ao disco, é uma interpretação, das mais belas que conheço, do hino nacional, A Portuguesa. O arranjo e a interpretação da Isabel Silvestre têm o condão de transformar um hino muito belicista numa canção popular simples e profunda. Este disco da Isabel Silvestre é uma jóia da música popular portuguesa, uma peça fulcral da nossa cultura e da nossa identidade, e só porque somos muito ignorantes e medíocres é que não o reconhecemos todos os dias.

Um dos temas incluídos no cd é precisamente o hino religioso Miraculosa, Rainha dos Céus. Mais um arranjo fabuloso, num disco que está cheio deles, e uma interpretação arrebatadora da Isabel Silvestre. Conservo intacta a emoção que senti quando trouxe o disco para casa e ouvi este tema pela primeira vez, e essa emoção renova-se de cada vez que a ouço. É uma canção lindíssima, com uma melodia muito simples e comovente, uma letra poderosa, com um forte apelo à paz, e que esta versão da Isabel Silvestre nos dá numa dupla dimensão: nas coplas, é uma oração, íntima e pessoal; no refrão, é um hino de festa e romaria.

Decidi fazer um clipzinho com este tema, para pôr aqui e no YouTube (e no Vimeo, já agora). Escolhi umas imagens, algumas de temática religiosa (e como não?), que fiz na Guatemala, quando lá estive há dois anos. A primeira sequência, feita num restaurante onde estava a almoçar em Antigua Guatemala, regista o oscilar de um canddeiro provocado por um ligeiro terramoto.



Este texto, e sobretudo este clip, são dedicados, com um forte abraço, ao meu amigo João, o Pinguim, no dia do seu aniversário.