March 15th, 2011

rosas

cidade dos espelhos



Depois de um calhamaço, nada como um livro breve para limpar o palato. O João Paulo Borges Coelho é um escritor moçambicano, dos melhores, na minha opinião, a escreverem actualmente em língua portuguesa. Depois do premiado O Olho de Hertzog, editou agora uma 'novela futurista', assim diz o subtítulo, Cidade dos Espelhos. Pouco mais de 100 páginas, em ambiente totalitário pós-nuclear, a contar a história de três terroristas a fugirem à polícia na cidade sitiada. Muito diferente daquilo a que estamos habituados no autor, mas não vem daí mal nenhum. O problema é mesmo que o autor parece ter pouca história para contar. Interessam-lhe os ambientes, as descrições, a criação de um universo puramente imaginário, eventualmente a parábola dos totalitarismos militares e a do futuro sob as chuvas ácidas. O que é pouco, e só se aguenta porque o livro é breve. O que sobra, então, é mesmo o talento para a escrita de JPBC, e sua proficiência narrativa, a capacidade de criar imagens ou soluções muito impressivas. Ler este livro, como sempre acontece com o autor, é sobretudo o prazer de ir atrás das palavras, de nos deixarmos conduzir pelas frases, mesmo, como é o caso, quando as peripécias não nos prendem. Sirva de exemplo dessa riqueza o brevíssimo trecho que para aqui transcrevo.

"No subúrbio, os caminhos são longos fios de cabelo por escovar. Neste caso os arquitectos desistiram de tudo aquilo que traziam, limitaram-se a mapear os tortuosos itinerários da dor, aquela que ganhou a solidez dos ossos. Cada viela é uma dor singular, tantas que é impossível contar."