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um português para o futuro
rosas
innersmile
Terminei hoje de manhã a leitura das Memórias de Rómulo de Carvalho. A princípio ainda tinha pensado em lê-las devagar, espaçadamente, metendo outras leituras pelo meio. Mas acabei por ler o livro de seguida, e sempre com uma espécie de urgência. Quinhentas páginas, com letra pequena e mancha cerrada, que constituem, talvez mais do que memórias, o balanço de uma vida. RdC era um cientista, um homem de espírito positivo (no sentido metodológico do termo, não no emocional), e este volume resulta, acho eu, de uma certa necessidade de fazer o relatório & contas de noventa anos que tiveram a idade do século.

Pelas minhas contas RdC terá levado entre dez a quinze anos a escrever estas memórias. Já as redigia em 1985, ele próprio o refere, e terminou-as pouco mais de um mês e meio depois de fazer os noventa anos, e quinze dias antes de morrer, em Fevereiro de 1997. A obra foi manuscrita, numa letra que, provam-nos os fac-similes anexados ao volume, se manteve até ao fim certa e legível.

O livro tem, grosso modo, três partes distintas. A primeira, que foi a minha preferida, é a da infância, uma delícia pelas descrições que RdC faz da vida de uma família da pequena burguesia no início do século XX, com enfoque quer na vida doméstica quer na crónica de costumes quer no próprio retrato histórico da época. Segue-se a história da vida profissional do autor, que, novamente, além da história de um percurso individual, constitui um retrato bastante razoável do que foi a educação durante o Estado Novo. Finalmente, o livro encerra com um ensaio auto-biográfico sobre António Gedeão, e, nas páginas finais, com um verdadeiro balanço dos principais acontecimentos que marcaram a vida do autor em diversos aspectos.

Tenho pena que estas Memórias não tenham a divulgação que a vida e a obra de RdC merecem. Em tempos de grande insatisfação, a dedicação de RdC ao trabalho, a sua capacidade de fazer coisas, a sua visão do mundo e dos outros, e do seu próprio papel nesse mundo e na sua relação com os outros, constituem um exemplo. Rómulo de Carvalho foi um príncipe português. Se a história guardar a memória do século XX a partir da figura de Rómulo de Carvalho, os portugueses do futuro, os ‘queridos tetranetos’ para quem estas Memórias foram redigidas, vão ter do nosso tempo, do nosso país, e de nós próprios, uma imagem seguramente melhor do que na verdade nós somos.
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