March 10th, 2011

rosas

uma constante da vida

A leitura das Memórias de Rómulo de Carvalho trouxe-me, inevitavelmente, a poesia de António Gedeão. Fui ali conferir o meu exemplar da Poesia Completa: Março de 1983, a 8ª edição da Sá da Costa. A poesia Completa de Gedeão foi-se completando sempre mais, até à morte do seu autor, de modo que um dia destes vou ter de comprar uma edição recente da Obra Completa, que reúne, para além da poesia, toda a obra literária que Rómulo de Carvalho assinou como o seu amigo António Gedeão.

Mas regressando à poesia. A repetição tem sempre o efeito preverso de nos tornar insensíveis àquilo que se repete. É assim com as imagens (as imagens de violência na televisão, às quais somos insensíveis por efeito da repetição), com a música (às tantas estamos tão fartos de um qualquer êxito da rádio que já ouvimos sem o escutar), é assim também com as palavras.

O poema Pedra Filosofal, de António Gedeão, foi um êxito imenso, sobretudo na versão musicada pelo Manuel Freire, e que foi cantada por uma infinidade de cantores, nomeadamente, na que é talvez a melhor das versões, por Carlos do Carmo. Ouvimos tanto a Pedra Filosofal, mas tantas vezes, que deixámos de a escutar, de prestar atenção às palavras, ao seu significado, ao seu som, à sua música. Reconhecemos os sons, a prosódia, e a nossa memória faz o match com o que lhe chega através da audição ou da visão, sem o mínimo esforço de racionalização. Sabemos a Pedra Filosofal, conhecemos de cor os versos ou trechos do poema (quem não sabe que "eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, e que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança"? quem não conhece isto, quem não sabe de cor este trecho?! aposto que ninguém!), mas de facto deixámos de a escutar, de racionalizar o seu significado, de perceber as palavras.

Um dia, estava a ler as Memórias e lembrei-me deste início fulgurante: "Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer". O tom absolutamente coloquial desta frase, que poderia ser dita numa qualquer conversa de café, faz um contraste fortíssimo quer com a música das palavras, com o ritmo da frase, com a cadência, com a melodia das sílabas; mas faz também um contraste poderoso com o seu significado, com a intensidade da mensagem, com sua profunda e essencial humanidade, e, claro, com o seu potencial subversivo e libertador. O sonho não é para os sonhadores, não é poesia para alienados, não é uma coisa vaga e intangível, não é um estado de alma, nada disso. O sonho é, como outra coisa qualquer, concreto e definido. E segue-se uma enumeração, em trinta e tal ou quarenta versos, em imagens que juntam a natureza, a ciência, a música, a pintura, a história, o passado e o futuro, tudo enfim, uma enumeração que nos faz inchar o peito, a exemplificar como o sonho é, de facto, uma constante da vida.