March 7th, 2011

rosas

o faroeste + the fighter 3*

Ontem, ao final da tarde, a Orquestra Sinfónica do Porto deu um concerto na Casa da Música sob o tema Faroeste, em que foi apresentado um programa que incluia temas de inspiração no oeste norte-americano (Aaron Copland, Michael Daugherty ou Samuel Coleridge-Taylor, por exemplo) e bandas sonoras de westerns (John Barry e Elmer Bernstein). Os membros da orquestra apresentaram-se trajados a rigor, ou seja, com fantasias de carnaval. As mais comuns tinham a ver com o tema do concerto, muitos índios e cóbois, mas havia de tudo, nomeadamente um Obélix, uma Pipi das Meias-Altas, e o Sérgio Carolino, que também é músico de Jazz no trio TGB, carregava a sua tuba imensa fantasiado de operário. Até o maestro, o norte-americano Joseph Young, ia fantasiado de cóboi, o que lhe valeu ataques da secção índia dos metais de cada vez que entrava na sala. Para mim a melhor rábula apresentada foi mesmo a inicial, com os músicos, sob as ordens de um falso maestro, a tocarem cada um para seu lado - é que estavam sentados nas posições erradas e portanto a tocarem instrumentos que não eram os seus.

Foi, como se calcula, um concerto muito bem disposto, em clima informal, muito diferente do ambiente solene que habitualmente domina as apresentações das sinfónicas. Inclusivamente num dos intervalos entre duas peças do programa, um dos trombonistas e um dos contrabaixistas ensaiaram um númerozinho de jazz delicioso. Mas este clima descontraído não prejudicou, como é óbvio, a prestação dos temas, e o ataque inicial com o tema de Os Sete Magníficos, de Elmer Bernstein, deu logo o tom de western à função.

Como o anúncio do jornal dizia que o público podia participar no tom da festa, o Zé teve a ideia de comprar fitinhas com uma pena, à índio, para estarmos no espírito do faroeste. Claro, eramos os dois únicos adultos 'mascarados', mas é verdade que se diga que mantivemos os nossos cocars (versão minimalista) durante todo o concerto, sempre com muito aprumo e dignidade. A ida ao Porto completou-se com uma ida à Foz, a fazer horas para o concerto e onde bebi dois batidos no Porto Doce, e, depois, com uma francesinha e um quente e frio no Capa Negra.

No Sábado à noite tinha ido ver o filme The Fighter, do David O. Russell, baseado na história verídica de dois irmãos pugilistas. O filme interessou-me sobretudo porque aborda uma relação complicada entre irmãos, em que as coisas nem sempre são o que parecem, e onde o equilíbrio entre as forças é ambíguo e instável. O happy end parece um pouco forçado e contraria o tom de 'dirty realism' que o filme tem, e que explora muito bem o ambiente white trash em que a família vive; mas se o final corresponde ao que se passou na história real, não podia ser de outra maneira.

É inevitável, a propósito deste filme, falar nas interpretações. Melissa Leo e Christian Bale justificam os oscars de secundários que receberam a semana passada, ainda que não se perceba muito bem porque é que o papel de Bale é secundário em relação à personagem do irmão. Christian Bale é um actor extraordinário, com uma técnica rigorosa, e uma abordagem tão precisa e completa que parece que a personagem lhe veste cada célulazinha do corpo. Não obstante, por vezes descai para um certo over-acting que pode ser um bocadinho irritante e até confrangedor. Quanto ao Mark Wahlberg, que além de interpretar foi um dos produtores do filme, e das pessoas responsáveis e comprometidas na sua concretização, aposta quase sempre num registo muito contido (há ocasiões em que me faz lembrar o Matt Damon) que serve muito bem a personagem e um certo conflito entre a frieza do lutador e o tumulto emocional que a vida familiar lhe provoca.