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morrer como um homem + the howl
rosas
innersmile
Viva o cinema em casa. Apesar de eu não estar tecnologicamente apetrechado com as maravilhas do home cinema (um televisor minúsculo e velhíssimo, um computador portátil com um ecrã pequeno), sempre é uma oportunidade de ver filmes que escaparam ou que demoram a chegar às salas. Foi assim que pude ver a semana passada dois filmes especiais.

O primeiro foi Morrer Como Um Homem, a terceira longa-metragem de João Pedro Rodrigues, que, tanto quanto me lembro, não chegou a passar por Coimbra, e agora, graças à edição em dvd, pude finalmente ver. Eu gosto dos filmes do JPR, mas acho que eles podiam ser melhores do que são. Percebo e agrada-me um certo risco ligado ao gosto e à vontade de experimentar, e de sair das convenções de género, quer ao nível da narrativa, quer mesmo no plano do argumento, ao fazer a história explodir fragmentos em várias direcções. Mas o ponto é que o filme é sempre melhor, mais forte, e mais convincente, quando se concentra na história que lhe dá origem, ou seja a de Tonia, um travesti a quem o envelhecimento e a doença apanham em cheio num processo de sempre adiada transformação. Tonia, a personagem que é inspirada, tal como parte da história do filme, na história verdadeira do travesti Ruth Briden, é, além do mais, um trabalho de composição notável de Fernando Santos (outro conhecido actor de travesti da cena lisboeta das discotecas e bares gay). Um filme imperfeito, falhado, a fazer ansiar pelo que poderia ter sido, não deixa de, como é habitual no cinema de JPR, encantar pela beleza de algumas cenas ou pela radicalidade poética do seu discurso.

O outro filme que vi foi o muito ansiado The Howl, realizado por Robert Epstein e Jeffrey Friedman, a dupla que nos deu, entre outros, The Celluloid Closet, Paragraph 175 ou The Times of Harvey Milk. The Howl filma verdadeiramente o poema de Allen Ginsberg, que é sempre o tema principal, e é esse o seu principal atractivo. No entanto o filme decorre em três planos diferentes e que se vão alternando: o do próprio poema, que vamos ouvindo a ser declamado ou representado graficamente através de um filme de animação; o de uma entrevista com a personagem de Allen Ginsberg; e o do julgamento por obscenidade de que o livro de Ginsberg foi objecto. O que vamos vendo no ecrã são recriações, feitas com os recursos, digamos assim, do cinema de ficção, destes vários momentos, mas o tom é sempre o de um documentário. Para além de se tratar de um verdadeiro labour of love em relação ao poema de Ginsberg (e só esta oportunidade de ver um filme que é dedicado a um poema, já é verdadeiramente extraordinária), Howl é ainda um trabalho fantástico do actor James Franco, cuja composição da persona de Allen Ginsberg é espantosa e comovente.
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