?

Log in

No account? Create an account

deixa o grande mundo girar
rosas
innersmile


No dia 7 de Agosto de 1974 Phillipe Petit, um fonâmbulo francês, esticou um cabo de aço entre as duas torres gémeas do World Trade Centre, e, armado apenas de uma longa vara de equilíbrio, andou durante 45 minutos a passear no céu da cidade de Nova Iorque. Deixa o Grande Mundo Girar é um romance escrito por Calum McCann, que conta várias histórias de pessoas cujas vidas, tocadas ou não por esse acontecimento estranho que ocorria no céu da sua cidade, mudaram nesse dia. Histórias paralelas, fragmentadas, umas contadas como um relance apenas, qualquer coisa que acontece enquanto alguma coisa acontece lá fora, outras histórias que se desenvolvem ao longo de muitos anos e de diversos lugares. Há personagens de quem nada sabemos, que são apenas um vislumbre (uma mulher que atende o telefone que toca numa cabine pública); outras que literalmente vemos crescer, que acompanhamos e ficamos a conhecer e cuja intimidade partilhamos (como Corrigan ou Tillie). São muitas histórias, que vão formando um puzzle de que não conhecemos a imagem, que por vezes não nos parece que pertençam sequer ao mesmo puzzle, e que adivinhamos que se encaixam todas mesmo quando não conseguimos ver o desenho final na sua totalidade.

Já tinha lido aqui há uns anos um outro livro de Colum McCann, Dancer, um romance biográfico sobre a vida de Rudolf Nureyev, e que era igualmente um romance feito a muitas vozes, todas elas dando-nos um aspecto da vida de Nureyev, e cujo potencial dramático, do livro como da personagem, era-nos dado precisamente pelo carácter fragmentário do livro. O mesmo acontece em Deixa o Grande Mundo Girar, mas agora com essa dificuldade acrescida de não termos um guião pré-conhecido, como acabava por acontecer com a vida de Nureyev. Confirma-se além disso a força da voz narrativa de McCann, a sua capacidade de fazer a vida jorrar das páginas do romance, e que vem da mistura de um certo tom épico, um movimento, ou uma energia que arrasta tudo e todos, com uma surpreendente atenção ao detalhe, a capacidade de nos puxar para uma intimidade que é tanto física como emocional.

Apesar de estar no centro do livro, o passeio aéreo de Phillipe Petit nunca se transforma no seu tema. A não ser nas páginas iniciais, a proeza de Petit é sempre mais uma ausência do que uma presença, é sempre uma coisa que está a acontecer lá fora, na baixa da cidade, uma coisa que nos faz assomar às janelas ou aos telhados dos prédios, ou tão simplesmente parar numa esquina de rosto voltado para cima. Mas, como disse, toda a acção do romace se passa ou converge para esse momento em que o quotidiano da cidade e das suas vidas é rasgado pela irrealidade do passeio do fonâmbulo. O último capítulo constitui uma espécie de epílogo, passado em 2006, que mais do que resolver as situações do romance, mais do que atar pontas, como que pretende apenas informar o leitor que a vida prosseguiu para além desse dia extraordinário. É um arco, enorme e aberto, que começa nessa manhã de Agosto de 1974 e não se sabe muito bem onde irá terminar. Sabe-se apenas, e o livro a certo ponto parece ser apenas sobre esse eloquente, ou mesmo ensurdecedor silêncio, sabe-se apenas, dizia, que esse arco se estende muito para além de um outro dia extraordinário, de uma manhã de Setembro de 2001, em que o World Trade Centre desapareceu do céu de Nova Iorque. Mas cujo desaparecimento, aparentemente, não precludiu a hipótese de voltarmos a poder caminhar sobre o céu da cidade.

A proeza extraordinária de Phillipe Petit está contada num belíssimo documentário, intitulado Man on Wire, que está edtado em dvd, e de que já falei aqui (link).