February 27th, 2011

rosas

somewhere 4*

Faço horas para acompanhar mais uma cerimónia de entrega dos Oscars. Esperemos que não me aconteça como o ano passado, em que dormi a maior parte do tempo.

No meio da confusão que têm sido estes últimos dias, fui ontem à noite ver Somewhere, da Sofia Coppola. Gostei imenso do filme. Gostei do tom minimalista, de uma certa secura, de uma brevidade e de uma leveza que marcam a narrativa, em que o que se mostra e se diz parece ser sempre o mínimo possível, ou mesmo menos do que isso. A câmara de Sofia é discreta e distante, mesmo quando penetra nas zonas mais íntimas das personagens e das suas histórias. Há nesse olhar uma contenção que parece ser tão feita de pudor e distância quanto de curiosidade. Há de facto uma disponibilidade para olhar, uma vontade inocente de fixar o olhar. Pudor, portanto, por um lado, mas também aquele olhar fixo que as crianças deitam quando alguma coisa lhes parece bizarra ou apenas vem interromper o seu quotidiano. A câmara de Sofia aponta o olhar às personagens, e depois deixa-se estar, só a olhar para elas. À espera não tanto que esse olhar nos revele alguma coisa de interessante, mas que permita às personagens que elas próprias se revelem alguma coisa.

Claro que podemos ser um pouco cínicos e dizer que esta é uma história sobre um pobre menino rico, contada por uma pobre menina rica. E não deixa de ser verdade que há no filme, por vezes de maneira mais subtil mas outras nem tanto, uma espécie de vocação para documentário national geographic sobre os young, rich and beautifull de Hollywood, tipo “vejam, é assim que nós somos, e também sofremos angústias e tal”. Mas esse se calhar é o lado menos interessante e divertido do filme. Muito melhor é a candura com que o filme olha para aqueles que, nesta altura do campeonato já não deviam ter candura nenhuma. E a forma quase poética, despojadamente poética como o faz.

Ou isso, ou então o filme tem uma fotografia quase luxuriosa, o Stephen Dorff está o melhor que eu me lembro, a Elle Fanning contamina o filme com a limpidez do seu olhar (e com o seu número de patinagem), e a banda sonora, como sempre acontece nos filmes da Sofia Coppola, é uma antologia imperdível.