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tempo
rosas
innersmile
Ando há dias para escrever aqui uma coisa sobre o caso da mulher da Rinchoa que esteve nove anos morta no apartamento. Sem dúvida que esta é uma notícia que traz agarrado um drama imenso, uma ferida social, e uma falência institucional. É um caso chocante, que nos põe a todos em causa, ainda que com graus de responsabilidade maiores ou menores. Mas é a face visível de um problema muito grave e que se tem acentuado nas últimas décadas.

Mas confesso que o me tocou muito foi a própria situação em si. Quando morre alguém, de algum modo o mundo resolve essa morte, salda-a, por assim dizer. Desmantela-se o corpo e a vida que lhe pertenceu. Arruma-se tudo. Enterrado o morto, desfeita a casa, cobrado o imposto sucessório, estamos prontos a começar tudo de novo. O que sobra é o que fica nos outros, matéria diáfana, feita de memória e saudade

Dizem os relatos nos jornais, que os novos proprietários acompanhados das autoridades competentes, perceberam que havia qualquer coisa de estranho, quando tentaram abrir a porta do apartamento e a corrente estava presa por dentro, as chaves na porta a ganharem ferrugem. Ou seja, quando aquela porta se tinha fechado pela última vez, não foi para dar o balanço final. Quando aquela porta se fechou pela última vez, foi por rotina, a repetição dos gestos quotidianos, as cautelas a tomar. Fechou-se num gesto de vida, e não num acto de morte.

E depois a vida como que se suspendeu. Rebentou-se uma artéria, um pé tropeçou, e o corpo caíu, no chão da cozinha, ali mesmo onde ainda agora estava vivo. Mas o tempo continuou a correr. O cão terá farejado o corpo da dona, à espera de uma resposta, ter-se-á ansiado com a sua própria sobrevivência, mas depois, com uma paciência e uma sabedoria que a nós humanos sempre escapará, deitou-se tranquilo à espera. Os pássaros murcharam na gaiola, as plantas secaram por falta de água. O ar ficou mais seco, parado, denso como um vidro. E passou uma semana, um mês, um ano. A campainha tocou, bateram à porta. Umas vezes à procura da proprietária, outras vezes só porque sim: um vendedor, o carteiro com um registo das finanças, o homem da tv cabo, as senhoras das testemunhas de jeová ao sábado à tarde. Um ano. A chave na porta foi secando e, por falta de óleo, começou a ganhar ferrugem. Tudo parado, só o tempo a passar. Absoluto, ao seu próprio ritmo, naquela casa agora já só habitada por quem deixou de o contar. Só o tempo, sozinho, a passar, um dia de cada vez, todos os dias iguais, um a seguir ao outro. Nove anos, que é mais do que o tempo de muitas vidas.
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