February 15th, 2011

rosas

uma praça de gente madura

Eu tento não ser muito cínico, mas cada vez tenho menos paciência para um entusiasmo muito cândido e adolescente de uma certa esquerda folclórica q.b. Há pessoas que ao mero som de um petardo ou de um slogan dito num tom um pouco mais elevado, desatam a salivar na expectativa da próxima revolução. Eu confesso que, mais por temperamento do que propriamente por razões ideológicas, não sou muito dado a revoluções. O mundo é um barril de pólvora, e o médio oriente o seu coração, e por isso não percebo muito bem porque é que há pessoas que desatam a embandeirar em arco quando vêem o rastilho a arder.

Não sinto nenhuma simpatia para com ditadores, nem para com regimes militares mais ou menos musculados, nem para com tiranos populistas. Mas também não tenho do mundo, sobretudo do mundo que fica para lá das muralhas de conforto do Ocidente, a visão idílica de que há um sentido de justiça e harmonia pronto a emanar do buraco mais infecto. Durante os perto de 20 dias que durou a ocupação da Praça Tahir, como agora, como durante os dias quentes na Túnisia ou a ameaça da crise se propagar a outros países da região, acho que havia muitas razões para termos o coração nas mãos: pelo mundo, pelos árabes, pelos egípcios em particular, por nós. Equivale isso a dizer que gostava de continuar a ver Mubarak no poder? Não mais do que, digamos, Hugo Chavez ou José Eduardo dos Santos, para referir apenas dois casos com os quais temos convivido de mais perto.

Não tenho grande fé na democracia, e no seu poder milagroso de proporcionar desenvolvimento aos povos e às sociedades (lembramos que este foi o D que o 25 de Abril falhou em cumprir?) Sobretudo em relação a países em que a grande maioria da população é pobre, mas pobre assim ao nível da miséria mais indegente, a um nível que não conseguimos sequer imaginar. Olhando para a concreta sittuação do Egípto, não sei se, agora que o palco da revolução vai ser desmantelado, haverá muitas razões para estarmos confiantes. Esperemos que sim.

Só quero acrescentar que já fui ao Egípto, como turista, naturalmente. Foi o primeiro país árabe e muçulmano que visitei, e ainda bem, porque fiquei logo seduzido pelos árabes, pelos seus costumes, pelas suas paisagens, pela sua comida, pelas suas cidades, pelos seus mercados. Foi o facto de ter gostado tanto das pessoas que conheci, e dos lugares que visitei, sobretudo o Cairo e Alexandria, de um certo sentido de cosmopolitanismo que tem mais a ver com a cultura do que com o dinheiro, foi tudo isso que me fez, depois, ter vontade de conhecer outros países árabes ou do Magrebe. Tal como foi entrar pela primeira vez numa mesquita do Cairo, e tentar perceber os rudimentos do islamismo, que me fez perder o medo dos muçulmanos.

Afinal ainda fica por dizer que não tenho paciência nenhuma para com aqueles que vêm uma 'praça de gente madura' (como na canção do José Afonso) e começam logo a sonhar com 'estátuas de febre a arder'. É ofensivo para com os povos oprimidos do mundo compararmo-nos a eles. Nós, os portugueses, mesmo com as dificuldades provocadas por uma crise que teve na sua origem, não o esqueçamos, a especulação capitalista, estamos noutra liga. Os nossos dirigentes são apenas medíocres (como nós?), e não ditadores que acumulam poder e riqueza sobre a miséria. Termos a noção das proporções é sinal de sensatez e de maturidade: pessoal, social e política.