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verão
rosas
innersmile


Verão é o segundo livro que leio de J. M. Coetzee, escritor sul-africano radicado na Austrália, prémio nobel da literatura creio que em 2002 (pois, devia ir conferir os factos, não é?). Mas se tal como tinha acontecido com Elizabeth Costello, não estamos propriamente no campo da literatura recreativa, que distrai e dispõe bem, achei este livro bastante mais empolgante do que o anterior.

Parte desse entusiasmo vem do dispositivo narrativo do livro. Anunciando-se como a terceira obra de uma trilogia autobiográfica (e a primeira das três a ser editada em Portugal), Verão apresenta-se como um conjunto de elementos que estão a ser reunidos por um biógrafo que anda a preparar um volume sobre a vida do escritor, entretanto falecido, John Coetzee entre 1972 e 1976 numa fase em que ele regressou à África do Sul depois de uma experiência académica no estrangeiro, e em que ensaiava as suas primeiras tentativas de escritor. A abrir e a fechar o livro fragmentos supostamente da autoria do próprio escritor, com notas do biógrafo; pelo meio, um conjunto de entrevistas a pessoas que conheceram e lidaram com Coetzee durante o referido período. O livro aborda uma variedade de temas, uns mais intímos e pessoais, como os relacionamentos familiares e amorosos de Coetzee, e outros mais políticos, pois a situação da África do Sul, então em plena época do apartheid, nunca deixa de estar presente.

O tom é de uma implacabilidade que chega a ser impressionante, e que é dirigida em todas as direcções. Em primeiro lugar contra o próprio Coetzee. O retrato que aqui é desenhado não é propriamente bonito: um homem inseguro, distante do mundo, inadaptado, com óbvias dificuldades de relacionamento afectivo e sexual, e por aí fora. Não há muito de simpático que o conjunto de entrevistados (quatro mulheres e um homem) tenha a dizer de Coetzee, alguns deles até preferiam nem sequer ter de se lembrar que houve uma época em que se relacionaram. Depois, o olhar para a África do Sul é igualmente desapiedado e desesperançado. Coetzee assume-se como um desenraizado, alguém que sabe que não pertence à sua pátria, nem sequer à sua tribo, a sensação de que se é um intruso na terra onde se nasceu.

Claro que um dos aspectos mais fascinantes do livro, sobretudo no que diz respeito ao retrato do próprio Coetzee e às suas relações familiares, reside no facto de não conseguirmos saber o que é que nele há de efectivamente biográfico, no que à vida do próprio J. M. Coetzee se refere, e o que é que é pura ficção, ou mesmo o que, tendo um fudo de verdade, não deixa de ser pura construção literária. É óbvio que esse efeito é propositado, aliás é ele a alma do livro, esse jogo entre a literatura e as memórias do autor do livro.

Pessoalmente o livro marcou-me. Revi-me muito no retrato impiedoso, quase cruel, que resulta da personagem Coetzee. A sua disfunção em relação ao mundo, e o mal-estar em relação a si próprio, as relações complicadas com a família, uma certa inabilidade para o amor, enfim aquilo a que Carlos Drummond chamava "ser gauche na vida". Acho que também é para isso que servem os livros, para nos confrontarmos connosco próprios, para nos descobrirmos nas ficções dos outros. Mas não é muito frequente lermos um livro com a sensação constante de estarmos a ser esmurrados no estômago.