February 7th, 2011

rosas

um lugar hostil

O poeta Pedro Tamen é entrevistado por Carlos Vaz Marques na edição de Fevereiro da revista Ler. Tenho de transcrever para aqui um pedaço longo da entrevista, porque tem uma série de afirmações que me impressionaram muito, e não as consigo retirar do contexto das respostas de Tamen. Aí fica, sem mais devaneios.

«Faz parte de uma geração de poetas para a qual a mitologia romântica do poeta marginal ainda tinha muita força; alguma vez sentiu que o facto de não caber, em momento nenhum, nesse estereótipo o prejudicou?
Provavelmente. Não sei. Umas vezes irritou-me outras vezes deu-me vontade de rir a frase que ouvi repetida dezenas e dezenas de vezes de que eu era um poeta que não parecia poeta.
Porque é que lhe diziam isso?
Pelo facto de ter sido ao mesmo tempo um homem de organização e trabalho. Até fui bom a Matemática apesar de ter feito o curso de Direito. O facto de ser um homem de agenda fez com que muita gente dissesse: “É um poeta que não parece poeta.” Falando uma vez com o Nuno Bragança sobre isso, lembro-me desta frase que ele me disse: “Há duas espécies de artistas relativamente às convenções sociais e aos hábitos do mundo: aqueles que os enfrentam declaradamente, que os contrariam, que os violam – são os chamados 'marginais'; e há os outros que têm um tal medo do mundo que cumprem rigorosamente essas convenções e esses ritos”.
O seu caso é o segundo?
É. Ele dizia-me: “Tu és desses”.
Por medo do mundo?
Sim.
Explique-me lá esse seu medo do mundo.
Isto já não é uma entrevista, já é quase uma confissão…
Não quero arrancar-lhe uma confissão nem fazer disto uma sessão de psicanálise, de moso nenhum.
[Risos] Tenho a sensação de que a meticulosidade com que cumpro as regras – prejudicando-me, muitas vezes – não querendo desiludir as pessoas… Continuo a mandar votos de bom natal a gente que não o merece, propriamente. Bom, esse obstinado cumprimento das regras vem-me do facto de, no fundo, o mundo ser para mim uma coisa um pouco ameaçadora.
Vê o mundo como um lugar hostil?
Sim. Portanto a melhor maneira de me dar bem com ele é não o esgatanhar muito. A não ser na poesia. Aí sinto-me livre.»

É curioso, leio este trecho da entrevista e decido-me imediatamente de que tenho de o pôr aqui no innersmile. Mas essa decisão ao mesmo tempo provoca-me um pouco de embaraço. É curioso, porque recorrendo exclusivamente a palavras de outrem, acho que deve ser das coisas mais íntimas que aqui pus.