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o acompanhante
rosas
innersmile


O Acompanhante, de Jonathan Ames, é um livro um bocado improvável nos escaparates das livrarias portuguesas, que normalmente fogem de tudo o que escapa ao canone (seja ele literário ou comercial) como o diabo da cruz. O livro de JA situa-se claramente nas margens do sistema, não exactamente por ser militante da contra-cultura, mas apenas porque nos traz personagens e uma história de pessoas a quem falta o estofo, e as angústias, da classe média.

Trata-se da história de um pacato e jovem professor em Princeton (não na universidade, mas numa obscura escola secundária) que é obrigado a sair por ser apanhado a experimentar uma peça de roupa íntima pertencente a uma colega. Numa deriva, em modo de trânsfuga, por Nova Iorque acaba por alugar um quarto esquálido na casa de um velho professor decadente, aspirante a dramaturgo, e que ganha jantares grátis nos melhores restaurantes da cidade e bilhetes para a ópera, a acompanhar mulheres ricas ainda mais velhas do que ele.

O registo, como se calcula, é de um humor a que não faltam notas de corrosão e desbragamento, apesar do tom geral ser de uma candura desarmante, e às vezes mesmo de um pudor que quase soa a código de honra, apesar de o ambiente ser sempre de grande ambiguidade, nomeadamente, mas não apenas, no que diz respeito a interesses sexuais.

E o resultado é uma variante (muito) divertida e surpreendente do clássico romance de iniciação e aprendizagem, em que o segredo do sucesso, chamemos-lhe assim, é sempre o insondável mistério que cada pessoa traz dentro de si. É essa a complexa aprendizagem que Louis vai fazendo com Henry, o seu mentor, a de que não há excentricidade bastante que acomode o mal-estar que sentimos em relação à conformidade social. Por isso, o único caminho que nos resta é o de tentar encontrar a companhia perfeita, que pode não ser a melhor ou a mais desejável, mas que mitigue a inexorável e absurda solidão.