February 1st, 2011

rosas

alain oulman - com que voz 4*

Gostei imenso de Alain Oulman - Com Que Voz, o documentário realizado por Nicholas Oulmain para recuperar a memória daquele que foi, nos anos 60, o autor da maior revolução do fado, utilizando como instrumento revolucionário (a cantiga é uma arma, como cantava o GAC) aquela que era, e é, a essência da mais depurada canção nacional, a própria Amália Rodrigues. Longe de ser um filme perfeito, quer na lógica muito televisiva da narrativa, quer, por exemplo, numa certa concessão ao estilo de homenagem póstuma, Com Que Voz leva-nos ao intacto coração dessa revolução, mostrando-nos, com um detalhe comovente, os fios com que ela se foi tecendo e construindo.

Naturalmente o filme não se esgota na relação entre Alain Oulman e Amália, oferecendo-nos, como é mandatório nestes casos, o percurso de uma vida. Ainda que, por força da própria personagem, ou por opção do realizador, ou mesmo por insuficiência de alternativas, sejam ainda muitos os aspectos dessa vida que permanecem intocáveis ou apenas penumbrosos. Oulman era uma personagem ambígua, de tal modo que essa ambiguidade terá sido dolorosa para alguns daqueles que com ele conviveram. Essa ambiguidade permanece por resolver no filme, e nele apenas transparece um pouco dessa mágoa sentida pelos que lhe foram próximos.

O filme não é propriamente exuberante em matéria iconográfica (não obstante algumas preciosidades magníficas - lá iremos), suportando-se, do ponto de vista da estrutura narrativa, nas chamadas cabeças falantes. Mas a felicidade do filme, neste aspecto, é que as principais entrevistas, as que percorrem todo o filme e verdadeiramente o transportam, são prodigiosas: uma, a duas vozes, com as irmãs de Oulman, e outra com aquela foi sua mulher e mãe dos seus filhos. Muito diferentes no tom, mesmo quase antagónicas, são de facto mais próximas do que aparentam, assentando ambas numa intimidade que não se demonstra nem se explica, mas que transparece de maneira inexorável. Quando o filme nos aparece mais coerente e conseguido, é sempre (enfim, quase sempre) quando se apoia de maneira quase exclusiva nestes dois três testemunhos.

Para além de ser uma espécie de making of do que foi um momento transformador do fado (eventualmente o da mais radical transformação na sua história), o filme mostra-nos ainda, e tem inegável valor por isso, o que era uma certa sociedade lisboeta no período da ditadura, nomeadamente numa altura em que a pequenez nacional mais aparecia em contra-ciclo com aquilo que se passava no resto da Europa e no mundo. Nicholas Oulman consegue mostrar como se podia viver uma certa burguesia bem-pensante no ambiente altamente repressor (e absurdamente repressor) da mediocridade salazarista.

Como referi, o filme resvala por vezes para aquele tom de homenagem póstuma televisiva, e exemplo disso são os depoimentos de Camané e de Carminho que, já quase no final, distraem mais do acrescentam alguma coisa. Mas a sequência final, aquela com que filme termina e nos leva ao longo do genérico final, é um prodígio da ordem dos milagres. Recuperando imagens feitas por José Fonseca e Costa (e aqui, sim, o cinema está presente de forma fulgurante) assistimos a uma sessão de ensaios em que Alain Oulman, ao piano, vai entregando a Amália Rodrigues uma canção, enquanto Amália, um espanto, pega na melodia do piano e na entoação com que Alain vai cantarolando, e agarra a canção transformando-a num fado. Se nunca viram um milagre a acontecer, a ser feito ali mesmo diante dos próprios olhos, esta é uma oportunidade a não perder.