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hereafter 5*
rosas
innersmile
Confesso que fiquei muito surpreendido com o anúncio de Hereafter, o mais recente filme de Clint Eastwood a estrear, e que aborda o tema das experiências de vida após a morte, nomeadamente através do percurso de um medium que permite às pessoas comunicarem com os seus mortos. Parecia-me um óbvio miscast para o que estamos habituados no cinema de Eastwood, e mais próximo de certo espectáculo televisivo de mau-gosto. Mas ao mesmo tempo tinha uma enorme curiosidade em ver o filme, pois Eastwood dá-nos todas as garantias de qualidade, e a sua abordagem ao tema tinha de ser séria e cinematograficamente válida.

E o filme acabou por me surpreender porque consegue ser mais subtil do que se poderia pensar. De facto a história anda à volta dessas experiências de contacto entre os vivos e os (seus) mortos, mas é muito mais um filme sobre a fragilidade humana, sobre o desamparo, sobre a necessidade de dar sentido às nossas perdas. Eastwood filma com a contenção habitual o que, como quase sempre acontece, dá uma densidade emocional muito grande à narrativa. A escolha de momentos de grande impacto noticioso para situar acontecimentos determinantes do motor do filme como que acentua essa fragilidade, porque a torna parte do nosso quotidiano. De resto, o argumento do filme é todo muito bem construído, até no modo como aborda o tema. Mais do que explorar os fenómenos que têm muito a ver com a para-normalidade e tecer teorias sobre eles, o filme coloca-os sempre na esfera do conflito interior. Não há uma verdade que o filme defenda (apesar de denunciar o charlatanismo tão associado a estas práticas), porque é como se ao filme apenas interessasse a verdade que cada personagem traz dentro de si. A personagem de George (que mais do que personagem principal, é o polarizador das narrativas que se vão construindo) é paradigmática desses conflitos e dessas verdades interiores, e a sua relação com o irmão serve ao filme quase que excluvivamente para definir os contornos desses conflitos.

A sequência inicial do filme mostra-nos de uma maneira impressionantemente realista o que foi a catástrofe do tsunami do oceano Índico no Natal de 2004. É curioso que num filme que à partida está o mais distante possível daquele cinema onde habitualmente os efeitos especiais fazem parte do espectáculo, vamos encontrar uma das utilizações mais eficazes de efeitos especiais, demonstrando que a tecnologia e a espectacularidade dos efeitos só faz sentido quando está integralmente ao serviço da narrativa. Ou seja, os efeitos especiais mais fabulosos são precisamente aqueles que não se vêem.
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