January 19th, 2011

rosas

presidenciais 2010

Já tinha decidido que não ia votar nestas eleições presidenciais. Entendo que votar é um direito e um dever, mas não é uma obrigação. E embora aceitando como válidos os argumentos contra a abstenção e em favor do voto em branco, estas eleições têm-me passado demasiado ao lado para me dar sequer ao trabalho de ir à assembleia de voto no Domingo (confesso que a única razão que me conseguia dar a mim mesmo para ir votar, era ter a oportunidade para ver como ficou a escola depois das obras). Além disso parecia-me estratégico haver uma enorme taxa de abstenção, a fim de diminuir a legitimidade política do resultado, ainda que não obviamente a legitimidade formal das eleições.

No entanto desde o fim de semana tenho estado muito indeciso, e tem aumentado a minha vontade de, salvo seja, ir às urnas. Sobretudo porque o Cavaco se começou a crispar, e eu fico logo mais animado quando o Cavaco se irrita. Ultimamente tem sido quase ao ritmo de uma asneira por dia. Irritou-me muito aquela história da mulher (que ainda me irrita mais do que o Cavaco) só ganhar uma reforma de 800 euros. Uma porra. Se ganha uma reforma dessas é porque se aposentou com pouco tempo de serviço, e não tem por que se queixar. Mas a obscenidade foi mesmo dizer isto a uma mulher que provavelmente tem uma reforma de 200 ou 300 euros e além disso não tem a sorte de ser casada com um presidente da república que acumula 4 ou 5 pensões de reforma. Haja decência. E um político tem a obrigação de não dizer os disparates que lhe passam pela cabeça, quanto mais estes que podem ser verdadeiramente ofensivos. E isto para já não falar no que toda esta crónica feminina do discurso de Cavaco revela acerca da sua mentalidade relativamente às mulheres, aquela história de a mulher não andar atrás mas ao lado, e por isso ele ter obrigação de a ajudar. Uma ova!, ela é que o ajuda a ele, porque o atura e porque tem de haver alguém para lhe limpar a baba e provavelmente nenhuma das empregadas estava disposta a descer tão baixo.

Outra razão para ir votar é a esperança, ainda que remota, de o Cavaco não ganhar à primeira volta, argumento reforçado pelo facto de ele ter apelado ao voto ontem à noite em Coimbra (logo em Coimbra) com o argumento demagógico e anti-democrático de que é melhor ganhar já porque uma segunda volta fica muito cara ao país! Fica caro ao país ter um regime democrático que exige, como forma de garantir a legitimidade popular da eleição presidencial, a maioria absoluta dos votos? Só da cabeça do Cavaco é que poderia sair um argumento tão imbecil e que é um verdadeiro tiro no pé. Como é que alguém diz mal das regras do jogo que não só está a jogar, como ainda por cima está a jogar para ganhar? Era como um jogador de futebol pedir para ser retirado o guarda-redes adversário para assim poder ganhar o jogo. Duh.Com este apelo manhoso e sub-reptício à abstenção apetece-me logo ir votar, mais não seja para irritar ainda mais o Cavaco.

O problema, é claro, é ir votar em quem. Já não era a primeira vez que eu votava nos candidatos sempre-em-pé do PC, mas desta vez não me apetece, não estou para aí virado, e não simpatizo com a figura do candidato. O mesmo vale para o Defensor de Moura, não percebo a sua candidatura, nem ela me convenceu. Quanto ao Fernando Nobre, tenho sempre uma enorme desconfiança das pessoas que se acham providenciais, além de que não gosto de movimentos cívicos na política. Se queremos ter intervenção cívica há inúmeras maneiras de o fazer, e o Fernando Nobre até podia ter um prémio Nobel por isso. Não precisa da política para nada. Não consigo perceber nada de bom que a sua candidatura tenha trazido para o debate político, e presidencial em particular, nada de bom nem sequer nada de novo. Temos uma certa tradição destas candidaturas de boa-vontade (um pouco o papel que o Manuel Alegre desempenhou nas últimas eleições), mas sinceramente não lhes reconheço grande s mais-valias. Restam o Manuel Alegre e o José Manuel Coelho, ou seja o Alegre e o Pateta! Não gosto do Manuel Alegre. Não gosto da pose nem da pretensão. Não gosto do baronato nem dos direitos divinos. Não gosto de contrapor os Lusíadas à sebenta de finanças, exactamente pela mesmíssima razão de que não gosto que contraponham a sebenta de Finanças aos Lusíadas. Não gosto das dramatizações emotivas nem dos discursos dos perigos de morte da democracia. Até porque se há um sinal de perigo na nossa democracia é o de a esquerda não ter nada de melhor para apresentar do que o Manuel Alegre. Assim sendo, só me restava o Coelho. Tenho contra ele o ter empunhado uma vez uma bandeira nazi, no parlamento da Madeira. Eu sei que o fez para denunciar a falta de democracia da república das bananas do Jardim, mas para mim a bandeira nazi é tão peçonhenta que contamina as mãos de quem pega nela, até com as melhores intenções.

Estamos, portanto, a 3 ou 4 dias das eleições, e neste pé: se acreditar que é possível haver segunda volta, vou votar; se não me parecer, não ponho lá os pés. Se for votar, voto no Alegre ou no Pateta, venha o diabo e escolha. Mas pronto, logo se vê.