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os alegres rapazes de atzavara
rosas
innersmile


É o segundo livro de Manuel Vázquez Montalbán que leio em pouco tempo, embora este, Os Alegres Rapazes de Atzavara, tenha pouco em comum com o anterior, que era mais uma aventura de Pepe Carvalho. Quer dizer, tem pouco em comum apenas nesse aspecto, do tema, mas mesmo aí há fortes pontos de ligação, como seja o carácter sempre muito social e político da escrita de MVM. Se em O Prémio a análise do autor se focalizava sobretudo nas questões ligadas ao tráfico de influências num período de transição política (da governação PSOE de González para o PP de Aznar), Os Alegres Rapazes de Atzavara tem um foco sobretudo sociológico, embora dirigido para outro momento de mudança.

No Verão de 1974, enquanto Franco inicia a longa agonia que o levaria, mais de um ano depois, à morte, um grupo de gente bem da sociedade de Barcelona, professores, arquitectos, gente dos negócios, escritores, reune-se como habitualmente numa estância balnear catalã (o modelo será Sitges). O clima de abertura democrática que a doença de Franco promete agita os ânimos e baralha os dados, e a descoberta da revolução sexual, em todos os seus matizes, acrescenta tempêro. O livro é composto por quatro partes, cada qual com o seu narrador, sempre um dos intervenientes na acção. Os pontos de vista são muito diferentes, e vão desde o outsider do grupo, aos seus membros mais ortodoxos. Esta diversidade de vozes traz não apenas diferentes pontos de vista em relação aos mesmos acontecimentos, mas vai tecendo as diversas linhas narrativas que vão compondo, digamos assim, o universo ficcional do livro.

Montalbán desenvolve este verdadeiro puzzle com um domínio absoluto, como já acontecia em O Prémio, que era, igualmente, uma narrativa feita de fragmentos, e que se vão encaixando com perfeição uns nos outros e à medida que o livro avança. O único defeito que, na minha opinião, o livro tem, é que as personagens são muito tratadas quase como borboletas numa exposição, falta-lhes alguma densidade dramática que nos faça verdadeiramente envolver no seu mundo. Isto acontece mais com uns narradores do que com outros, é claro, mas no geral é claro que o que interessa ao autor, mais do que o seu destino de personagens de ficção, é o modo como se comportam em condições quase de um laboratório sociológico.