January 11th, 2011

rosas

11.1.11



"Quase todos e todas éramos então quarentões e pertenciamos a uma geração, talvez a primeira, que recusava a velhice como fatalidade física e inventava para si própria a eterna juventude de espírito com o simples truque de pôr ao seu serviço as formas de expressão da juventude, desde o vocabulário à gesticulação. Sair do papel atraiçoando a sua exteriorização convencional. Por vezes, ao ver uma peça de Tennessee Williams, o meu escritor preferido, apercebo-me que a subtileza das suas personagens, especialmente as femininas, é devida ao facto de se mexerem como não deviam mexer-se, falarem como não deviam falar. Para o espectador normal, essas personagens estão no limite da loucura, como a rapariga do Jardim Zoológico de Cristal ou a Blanche Dubois de Um Eléctrico Chamado Desejo. Mas não é isso. Blanche Dubois fala como se fosse ainda uma rapariguinha pretendida por cavalheiros distintos, elegantes e cultos, perante a exasperação do seu brutal cunhado. Infelizmente o autor precisa de um último acto, de um final, de um desenlace e vê-se obrigado a internar Blanche num manicómio, mas na vida real essa concessão brutal e clarificadora não seria necessária. Bastaria que Blanche entrasse e saísse do seu devaneio, repusesse a realidade e a credibilidade alheias e continuasse a viver em duas dimensões."

- Manuel Vázquez Montalbán, OS ALEGRES RAPAZES DE ATZAVARA