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(no subject)
rosas
innersmile
vanitas vanitatum et omnia vanitas


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chloe 3*
rosas
innersmile
Há uma enorme razão para ir ver Chloe, o último filme de Atom Egoyan (o filme em Portugal chama-se O Preço da Traição, e é um tema sociológico a escolha dos distribuidores de títulos sempre tão fundamentada em critérios de taxonomia). E essa razão é a Julianne Moore, que faz aqui possivelmente o seu melhor papel de sempre. Esta mulher é um prodígio, porque consegue adicionar à subtileza do seu jogo uma espécie de opacidade, que nos impede de ler de forma evidente a personagem, e nos instiga e chama para a complexidade da sua psicologia. Acho que só há uma outra actriz que é assim tão perfeita a revestir de humanidade as suas personagens, que é a Meryl Streep.

Ok, e então tirando La Moore, o que fica? O filme tem, digamos assim, duas partes. A primeira, que é a maior, é a mais interessante, porque o filme está cheio de equivocos e ambiguidades, e nós sentimo-nos tão desorientados como a personagem da JM. O filme é denso, bem construído do ponto de vista narrativo, e até um pouco perturbador. Depois na parte final as coisas simplificam-se muito e o filme fica muito superficial, muito rasinho, quase constrangedor de tão simplório. Há na última cena do filme, mesmo no último fotograma, uma tentativa de recuperar alguma da complexidade perdida, mas aí já é tarde (Inês é morta!) porque entretanto começa a desenrolar-se o genérico.

Para além da Moore há outra coisa fantástica no filme que é a escolha dos sets, quer, sobretudo, dos exteriores, quer mesmo dos interiores. Brilhante trabalho de 'repérage'. Filmado creio que integralmente em Toronto, o filme devolve-nos uma cidade com que parece fácil indentificarmo-nos, mas que tem um toque de sofisticação que a torna intangível, quase diáfana, um pouco a fazer a correspondência à própria personagem principal.

Chloe, por todas estas razões, é um filme que está sempre muito à beira de nos intrigar, de nos desinquietar do lugar seguro de espectadores, mas que se perde um pouco, e dir-se-ia irremediavelmente, no desenlace e na maneira como ele nos é servido. Mas, e porque não é demais reforçá-lo, é um filme obrigatório porque a interpretação da Julianne Moore é estratosférica.
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down in the depths
rosas
innersmile
Quando li a notícia da morte do cronista social Carlos Castro, na net, na manhã de Sábado, tive de imediato a percepção do que por aí viria em termos de opinião pública. Os homossexuais são alvos muito fáceis. E um tipo como o CC, demasiado identificado com os maneirismos e as atitudes daquilo que vulgarmente se denomina por bicha, e ainda para mais uma bicha velha, rica e poderosa como era o caso, ser, ainda que barbaramente, assassinado nas circuntâncias em que o foi, era demasiado bom para ser verdade, na óptica reaccionária de quem tem a homofobia internalizada e, quando muito, mais ou menos domesticada por razões de correcção política.

Há muito que me perturbam, e sempre me surpreendem, as opiniões que se espendem nas redes sociais e nas páginas de comentários dos jornais acerca de todo e qualquer assunto, do mais sério ao mais prosaico. Primeiro porque é surpreendente o nível de imaturidade psiquica e social dos comentários, o maniqueísmo mais primário, a incapacidade de perceber os contornos mais complexos de cada questão, para já não falar na incapacidade em compreender que não existem soluções fáceis para aquilo que são, genericamente, os problemas da vida, sejam eles políticos, económicos, sociais ou apenas do foro da intimidade pessoal e familiar. Sem o filtro da censura dos outros, dão-se largas a uma imbecilidade que só não é infantil porque isso seria ofender as crianças, mas que é imatura, do ponto de vista intelectual e até afectivo. O que mais me espanta, todavia, o que me deixa completamente incrédulo, é a total ausência de sentido auto-crítico, é as pessoas não serem capazes, perante uma determinada questão, de pensar para além do nível mais imediato de reacção. Não é difícil. Chama-se reflectir, pensar, analisar, tentar perceber as variáveis, o que está em causa, as contradições. Ler as páginas de comentários dos jornais on-line, mais do que uma depressão, é um forte incentivo à desilusão pela total incapacidade de este povo (enfim, sem querer generalizar) ser grande, ter elevação e desígnio. E não me digam que uma coisa não ter nada a ver com a outra, porque o que está na base da nossa miséria quotidiana é precisamente essa espécie de falta de vocação para a grandeza, é sermos mesquinhos e medíocres.

O que é mais interessante neste caso, e tentando esquecer os pormenores macabros do crime, é pensar no significado sociológico disto tudo, pensar no que é que este acontecimento diz de nós, e resistir à tentação de santificar ou diabolizar qualquer ou ambos os intervenientes. Pensar por exemplo no que é que leva jovens de vinte anos a ligar-se a pessoas mais velhas com quem não têm afinidades ou pontos de contacto, apenas por parecerem ser a via mais fácil para um sucesso que é ele próprio frágil e efémero. Ou pensar na falta de discernimento de um homem vivido e experiente que se recusa a ver as evidências e acha que os sentimentos e as emoções dos outros são manipuláveis só para manter uma ilusão. Há nisto tudo uma enorme falta de capacidade de ver a verdade, a verdade que está escrita na própria natureza das coisas, das pessoas e das relações entre elas. Isto não é um julgamento ético, tenho consciência de que todos somos dotados de uma imensa fragilidade, e que as promessas de felicidade, mesmo quando vãs ou deturpadas, são sempre demasiado tentadoras para desperdiçar.

O que eu acho é que as coisas são demasiado complexas ou subtis para podermos fazer uma leitura simples e taxativa de um acontecimento como este. Ele abala-nos porque, no desamparo dos outros nunca conseguimos deixar de ver o nosso próprio desamparo. Mais do que a verdade dos outros, e menos, muito menos, do que a verdade que possa estar inscrita, de maneira absoluta, em acontecimentos que são sempre brutais e imcompreensíveis, por vezes poderiamos fazer um esforço para tentar perceber a nossa própria verdade, aquela que trazemos dentro de nós e que, se escutarmos com atenção, é bem capaz de nos livrar de ter um encontro fatal com o destino num hotel de luxo no centro de Nova Iorque.
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