January 6th, 2011

rosas

a fotografia

A notícia vinha ontem nas edições on-line dos jornais, mas entretanto, com a fragilidade do que é efémero, sucumbiu à voracidade dos newsrooms, e hoje já desapareceu de circulação: um político local nas Filipinas trouxe a família para a porta de casa para lhes tirar uma fotografia; apontou a câmara e, para além dos familiares, apanhou um outro homem no momento exacto em que este apontava uma pistola para o assassinar. Na realidade o objecto da notícia era mesmo a insólita fotografia, ou seja essa circunstância extraordinária e estranha de alguém fotografar a sua própria morte. Fiquei fascinado com a fotografia; um fascínio, como é óbvio, feito de horror e de incompreensão, perante estas coisas que estão tão fora do comércio da vida quotidiana. Inclusivamente salvei a fotografia para o disco do computador, com medo de a perder. Precisava de olhar para ela mais vezes, à procura de uma explicação. Raramente o poder da fotografia é tão terrível, tão assustador, tão no limite do que é visível e, nessa medida, suportável. Lembrei-me daqueles povos que fugiam das máquinas fotográficas, porque tinham medo que a fotografia lhes roubasse a alma.