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le concert 3* + l'illusionniste 5*
rosas
innersmile
Nada como começar o ano com dois belos filmes. Bons augúrios, espero eu.

Comecei com Le Concert, uma comédia francesa, realizada por um romeno, passada na Rússia e em Paris e falada em russo. A história de um maestro caído em desgraça nos anos Brejnev e que, trinta anos depois, segura, contra tudo e contra todos e sobretudo contra todas as circunstâncias, a oportunidade de realizar o seu sonho e voltar a dirigir a orquestra do Bolshói na sua peça fetiche, um concerto para violino e orquestra de Tchaikovski. O filme tem um fundo político, do qual ninguém sai ileso, nem a antiga nomenclatura comunista, nem as forças emergentes da nova Rússia, nem os patrões da arte ocidentais. Salvam-se, isso sim, as personagens, quer no pragmatismo da sua luta diária pela sobrevivência, quer na maneira irredutível como perseguem o seu sonho. Como comédia o filme tem os seus bons momentos, uns mais subtis e outros mais óbvios. A narrativa acumula demasiadas coisas, o que, a meu ver, é o único incómodo do filme: às tantas somos incapazes de reagir a tanto pormenor, a tanta situação. Ponto altíssimo do filme, para além de alguns gags, sobretudo na parte do filme passada em Moscovo, é a banda sonora: quer a original (de Armand Amar, vencedor de um César) quer os trechos de música clássica de que é feita muito do material narrativo do filme.

O outro filme visto foi uma pequena obra-prima, uma verdadeira jóia: L’Illusionniste, a segunda longa metragem de Sylvain Chomet, o realizador de Les Triplets de Belleville, baseado num argumento original de Jacques Tati. O realizador consegue o impossível: fazer um filme pessoalíssimo, fiel ao seu universo do cinema de animação, e ao mesmo tempo captar, de uma maneira que diríamos milagrosa, o génio e a alma de Tati. Nunca nos esquecemos que estamos a ver um filme do realizador de Belleville, mas acreditamos na ilusão do filme, na sua magia, e deixamo-nos envolver no universo Tati, como se de facto estivéssemos a ver mais um filme de Tati, e com Tati. A animação, escusado será dizer, é prodigiosa; de delicadeza, de imaginação, de humor. O velho ilusionista é apenas uma de uma galeria de personagens inesquecíveis, todas elas dotadas de verdadeira espessura dramática. A começar, é claro, pelo coelho branco. Este filme é, como disse, um milagre. Basta acreditarmos na ilusão do velho mágico, e voltamos a ver Jacques Tati.
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