December 30th, 2010

rosas

inventário III: livros

Se eu tivesse de fazer uma lista dos livros que li este ano e que mais marcaram, muito possivelmente essa lista seria a seguinte:

- Patti Smith, Just Kids
- Gerbrand Bakker, The Twin
- Ruy Castro, Rio de Janeiro Carnaval de Fogo
- Colm Tóibín, Brooklyn
- Gore Vidal, Snapshots in History's Glare
- Luís Amorim de Sousa, Às Sete no Sá Tortuga
- João Paulo Borges Coelho, O Olho de Hertzog
- Jean Morris, Veneza

É uma lista ecléctica, que tem romances, mais ou menos contemporâneios, mais ou menos históricos, que tem ensaio, sobretudo na forma de memórias, mas também na dos travelogues, e que tem até um álbum de fotografias, embora sejam sobre um grande escritor, que as comenta.

Mas escolher estes em vez de outros livros é uma injustiça. Dos perto de cinquenta livros que li este ano, acho que não houve nenhum que me tenha dado seca, guardo memória de todos, como se os tivesse acabado de ler. A minha tendência é para os arrumar mais ou menos aleatoriamente (esta lista nunca segue a cronologia da leitura), mais ou menos afectivamente (há livros que puxam outros, que gostam de ser arrumados juntos).

Este ano foi decididamente um ano Tóbin. Como gostei muito de Brooklyn, senti necessidade de ler mais livros do autor. Mas comecei por uma releitura:

- Colm Tóibín, A História da Noite
- Colm Tóibín, The Heather Blazing
- Colm Tóibín, The Master

Continuaram as aventuras do policial nórdico, leitura ideal de férias, claro, mas também de fim de semana e, já agora, de semana toda. Descobri o Henning Mankell, que foi o meu escritor policial deste ano.

- Henning Mankell, A Leoa Branca
- Henning Mankell, Os Cães de Riga
- Henning Mankell, Assassino Sem Rosto
- Lars Kepler, O Hipnotista
- Jo Nesbo, A Sangue-Frio
- Jo Nesbo, O Pássaro de Peito Vermelho

Depois há os amores de sempre, aqueles autores a que estamos sempre a regressar, de quem tanto podemos ler o mais recente livro, como um livro já antigo que tinha escapado, ou mesmo reler aqueles livros que mais nos marcaram, ou, pelo contrário, aqueles cuja lembrança queremos avivar. São escritores sem os quais já não conseguimos passar. Mas o que lemos, ou relemos, nunca são os escritores, são sempre os livros (e mais uma vez, é o granel: ficção e não ficção, viagens, memórias, correspondência, poesia, humor).

- José António Almeida, Obsessão
- Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios
- José Saramago, Cadernos de Lanzarote Volume I
- José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal
- Luís Carlos Patraquim, A Canção de Zefanias Sforza
- Bruce Chatwin, Under The Sun
- Edmund White, Chaos
- John Steinbeck, The Pastures of Heaven
- PG WodeHouse, Hot Water
- Paul Theroux, Viagem por África
- Christopher Isherwood, Um Homem no Singular
- Edgar P. Jacobs, O Enigma da Atlântida
- Mário Vargas Llosa, O Sonho do Celta
- Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas

Continuo a deliciar-me e a descobrir a literatura de expressão espanhola (ou castelhana?). Para além dos mencionados Llosa e Pérez-Reverte, li ainda duas revelações (para mim, é claro), dois autores absolutos:

- Juan José Millas, O Mundo
- Juan José Millás, Os Objectos Chamam-nos
- Manuel Vázquez Montalbán, O Prémio



Acho que leio cada vez mais livros de não ficção, mas o grosso da coluna ainda são livros de ficção, como se vê pelos já referidos acima. Mais romances e novelas, poucos contos. Este ano houve encontros reveladores (Naipaul) e descobertas cintilantes (Roy). E houve clássicos.

- D.H. Lawrence, O Oficial Prussiano
- D.H. Lawrence, A Princesa
- V.S. Naipaul, Num País Livre
- Henry James, A Fera na Selva
- Richard Zimmler, O Último Cabalista de Lisboa
- Arundhaty Roy, O Deus das Pequenas Coisas

Quanto à não-ficção, e para além dos já referidos, houve de tudo: biografia, literatura de viagens, ensaios. Destaco a edição de duas obras nacionais na área daquilo a que poderemos denominar de estudos queer, e três obras muito interessantes com escopo na história recente de Moçambique (e falar, ainda hoje, na história de Moçambique não deixa de ser estar a falar na história de Portugal).

- Laurie Lee, Quando Parti Numa manhã de Verão
- Maria Dzielska, Hipátia de Alexandria
- Elzbieta Ettinger, Hannah Arendt e Martin Heidegger
- Miguel Pinheiro, Sá Carneiro
- Raquel Lito, O 3º Sexo
- São José Almeida, Homossexuais no Estado Novo
- José Milhazes, Samora Machel: Atentado ou Acidente?
- Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, Nacionalistas de Moçambique
- José Manuel Duarte de Jesus, Eduardo Mondlane: Um Homem a Abater

Não sei se foi dos anos que li mais (mas deve andar na média, à volta dos cinquenta livros por ano) mas foi um ano de óptimas leituras. Cada vez leio com mais prazer e, até por força do treino, acho que leio cada vez melhor. Leio mais depressa do que lia, e com mais atenção. E se é verdade que há livros que devoramos (li um dos livros do Mankell num dia, li o tijolo do Kepler num fim de semana, li o Cabalista de Lisboa em quatro ou cinco dias de férias), é mais verdade que há livros que nos devoram a nós. Engolem-nos todinhos, ao ponto de ficarmos tão dentro deles que parece que o mundo lá fora se suspende, entra em modo de pausa. Houve uma série deles assim, este ano. Mas os dois primeiros livros desta lista que referi, o Just Kids, da Patti Smith, e o The Twin, do Gerbrand Bakker, foram livros que me devoraram quase literalmente. Daqueles livros que entram no nosso coração, na nossa mente, no nosso espírito, e se alojam lá, que nos dão alegria e tristeza, que nos iluminam e magoam, que declinam, com um rigor cirúrgico, a nossa vida, ou melhor as nossas vidas: a que vivemos, a que fomos capazes de viver, a que gostariamos de viver. Curiosamente li os dois livros em inglês (a Smith no original, o Bakker em tradução do neerlandês); não sei se há probabilidade de The Twin ser por cá editado, é um livro demasiado obscuro (apesar de ter sido premiado, nomeadamente na Irlanda); já me parece mais provável que o livro da Patti Smith seja traduzido, tem tido muita notoriedade e a sua autora é, para todos os efeitos, uma rock star.