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o pintor de batalhas
rosas
innersmile


O Pintor de Batalhas foi o sexto romance que li da autoria de Arturo Pérez-Reverte, e ao contrário dos anteriores é um livro com muito pouco romanesco. De resto a trama é bastante simples: um antigo foto-repórter de guerra, a braços com a memória do horror que perpassou pela lente das suas máquinas, e do amor que o ligou a uma colega de profissão morta num cenário de guerra, está retirado numa velha torre de vígia, em cujas paredes redondas pinta um mural que lhe permita sublimar essas memórias pesadas. Um dia, aparece ao seu encontro um antigo soldado croata cuja foto tinha aparecido nas capas das revistas de todo o mundo, com a intenção assumida de liquidara dívida que constituiu o facto de essa fotografia lhe ter arruinado a vida. O livro tem dois planos, que são distintos mas que estão permanentemente a interagir: o do presente, dominado pelos diálogos entre o ex-fotógrafo e o ex-soldado, e pelo processo de construção do mural, e do passado, assombrado pela memória das guerras onde trabalhou, pela relação amorosa, e marcado ainda pela memória dos quadros que influenciaram a obra que está a desenvolver.

Trata-se de um romance muito intimista, reflexivo, sempre marcado pela memória do horror da guerra, e pelo lado mais sombrio e terrível da alma humana. Mas não é um livro depressivo, apesar do tom um pouco derrotista. Em parte porque a carga filosófica do livro é muito estimulante, estamos constantemente a ser provocados, há ideias que nos surpreendem, há situações e reflexões que nos põem em cheque, e nos obrigam a sair de uma certa esfera de conforto para nos confrontar com a realidade de um mundo que é o nosso, mas também com os recessos mais insuspeitos, e sombrios, do espírito do homem. O livro parece aceitar não só que a guerra é inevitável, mas também que é na guerra que o homem mostra a sua verdadeira natureza. Esta leitura propicia-se até pela forma como a história conclui, a de que a vida é um beco sem saída. Mas a mensagem de que guerra contamina inevitavelmente de horror todos aqueles que a experimentam, não tem de ser necessariamente pessimista: a barbárie não tem forçosamente o nosso destino, pode ser uma condição de que podemos aprender a libertar-mo-nos.

No entanto, onde o livro de Pérez-Reverte, pelo menos para mim, é mais interessante, é, por um lado, na análise comparativa que faz entre a fotografia e a pintura, e por outro, no verdadeiro levantamento das grandes obras da pintura universal que tiveram como objecto o conflito humano, quase um programa de workshop que inventaria as obras, as analisa do ponto de vista formal, e retira delas aquilo que, para a lógica narrativa do romance, é mais essencial. Como se calculará, nesse debate entre a fotografia e a pintura, o autor está claramente do lado da pintura, mas não, acho eu, por menosprezo pela fotografia, antes por achar que é no trabalho dos pintores que está captada a verdade das coisas.

Claro que neste livro há uma evidente ressonância pessoal, e isso torna-o particularmente interessante: Pérez-Reverte foi, durante mais de vinte anos, repórter de guerra, tendo estado presente em muitos dos teatros de guerra de finais do século XX: os Balcãs, onde esta história tem o seu ponto de origem, mas também no Golfo, no Líbano, em Moçambique ou em Angola, entre outros. Não desfazendo nos evidentes méritos de escritor, talvez só isso explique a intensidade e o rigoroso aprumo de alguns trechos deste livro.
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