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des hommes et des dieux
rosas
innersmile
Des Hommes et Des Dieux, de Xavier Beauvois, conta a história verídica de um grupo de monges trapistas que recusam abandonar o seu mosteiro quando rebenta a guerra civil na Algéria, em 1996, entre as forças militares do governo e os fundamentalistas islâmicos. O filme segue o quotidiano dos monges desde que começam a sofrer ameaças, e acompanha o dilema que sentem entre partir, abandonando o mosteiro e a aldeia, muçulmana, que servem, e ficar, correndo sério risco de vida.

O primeiro grande trunfo do filme é o argumento, que é sempre de uma enorme coerência, não tanto em relação à fé espiritual dos monges, mas à condição do seu voto, ao seu estilo de vida, se quisermos ser prosaicos. O filme põe-nos verdadeiramente a olhar o mundo da perspectiva dos monges, com o quadro de valores que norteia e sustenta a vida monástica. E devo dizer que neste aspecto o filme é muito surpreendente, porque não conseguimos ficar indiferentes, emocional e racionalmente, à lição de tranquilidade e segurança que, mesmno no meio do medo e da dúvida, anima a vida dos monges.

O segundo grande trunfo do filme é a realização, a maneira como o filme se apodera do cenário, quer no interior do mosteiro quer nos exteriores, fazendo como que recair neles a sua verdade. Acreditamos sempre muito mais numa história quando ela é verdadeira em relação a si própria, e a realização do filme é exímia em fazer passar essa noção de que aquela é uma história que pertence àquele lugar (mesmo que a história original se tenha passado na Algéria e o filme tenha sido filmado num velho mosteiro beneditino em Marrocos). A mesma lógica se aplica à maneira como o filme se suporta nos rituais, quer nos litúrgicos que mesmo nos mais seculares, que têm a ver com o trabalho no campo e com a assistência médica às populações. Exemplo disto é o papel dos figurinos, que dão expressão à vida no mosteiro. Se é verdade que o hábito faz o monge, este filme leva esse ditado à sua máxima concretização formal.

Os actores, o ensemble que dá rosto e corpo aos monges, liderado por Lambert Wilson e por Michael Lonsdale, são extraordinários de contenção e expressão dramática. Não há ponta de misticismo, de fervor místico, no jogo dos actores. Tudo é humanidade e amor, e são os olhos dos actores e os seus corpos, a maneira como interagem fisicamente uns com os outros e com o mundo exterior, que veiculam esse amor.

Finalmente a fotografia, que tem uma evidente qualidade pictórica, tratando as texturas, sobretudo dos tecidos do guarda-roupa, sobretudo da pele dos rostos dos monges, com aquela brancura feita de luz da pintura religiosa.
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