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pique-bandeira
rosas
innersmile
Estava, há pouco, a ler as entradas no livejournal, na página dos amigos. Um post da Lise (link), a falar do fim-de-semana, e das cansativas actividades passadas em brincadeiras infantis. Na maior parte do seu texto (belíssimo, como sempre são os textos da Lise), fala de um jogo, pique-bandeira, parecido, pelo que percebi, com o nosso jogo do mata, ou do lenço.

A minha memória reconheceu imediatamente a expressão, e estive uns bons minutos a fazer um esforço para me lembrar de onde a conhecia. Uma canção, tinha de ser uma canção. Aos poucos, começou-me a vir à ideia o som da expressão a ser cantada, comecei a ouvi-la na minha cabeça. Não tardou muito e a voz que a cantava também me começou a soar. Estava descoberta: uma canção antiquíssima do Oswaldo Montenegro, de um disco cujo título é o próprio nome do cantor, mas que é mais conhecido pelo nome de uma das faixas, Agonia. Um disco de 1980, que eu tinha em vinilo (e ainda tenho, claro, está na casa dos meus pais), comprado mais ou menos na data em que saiu, e que agora tenho em cd e também em ficheiro mp3.

Ouvi tanto esse disco, mas tanto, que sabia as canções todas de cor, e ainda agora, apesar de ser raro ouvi-lo, acho que continuo a ter algumas canções completamente memorizadas. A minha preferida sempre foi a Incompatibilidade, uma canção que faz parte assim do meu DNA, da banda sonora da minha vida.

Mas esta canção do pique-bandeira, é outra, chama-se Ao Nosso Filho, Morena. Gostei tanto de ler sobre ‘pique-bandeira’ no texto da Lise. É como se tivesse estado estes anos todos à espera que o texto da Lise surgisse para eu poder regressar à canção, e de repente ela ganhar vida, ter gente a habitá-la, a Lise, as crianças, as amigas, um fim-de-semana de sol e calor passado no sítio, as roupas leves e coloridas, correr descalço na erva. Isto, claro, apesar de ser uma canção triste, melancólica, mas foi esta melancolia, em forma de uma dia de verão, que guardei.

Procurei o clip no YouTube, mas o que encontrei não achei graça, nem ao som nem às imagens. Juntei umas fotos que fiz nos últimos dois ou três meses, todas com o telemóvel, peguei no ficheiro com a canção, e fiz este clip. Que aqui fica, naturalmente, para a Lise, e para o barulho da algazarra, que eu quase consigo ouvir por entre a canção, das meninas a brincarem ao pique-bandeira.



«Se hoje tua mão não tem manga ou goiaba
Se a nossa pelada se foi com o dia
Te peço desculpas, me abraça meu filho
perdoa esta melancolia

Se hoje você não estranha a crueza
dos lagos sem peixe, da rua vazia
Te olho sem jeito, me abraça meu filho
não sei se eu tentei tanto quanto eu podia

Se hoje teus olhos vislumbram com medo
Você já não vê e eu juro que havia
te afago o cabelo, me abraça meu filho
perdoa essa minha agonia

Se deixo você no absurdo planeta
Sem pique bandeira e pelada vadia
Fujo do teu olho, me abraça meu filho
Não sei se eu tentei, mas você merecia.»