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o prémio
rosas
innersmile


Acabei de ler O Prémio, da autoria do (falecido) escritor catalão Manuel Vázquez Montalban, um de uma longa série de romances protagonizados pelo detective privado Pepe Carvalho. Há muito que queria ler um livro de Carvalho, mas nunca tinha calhado, e agora que finalmente aconteceu não fiquei nada desiludido. A escrita de MVM é muito rica, cheia, divertida, com um forte pendor de crítica social e de costumes. Montalbán era um epicurista, e isso reflecte-se no livro, sem falar no estofo de velho jornalista, que conhece o bas-fonds mas também as penthouses dos ricos e poderosos. Carvalho, catalão como o seu criador, e como ele gastrónomo e ex-comunista, é de facto uma personagem irresistível, dotado de um olhar clínico e de uma ironia aguda.

Em O Prémio toda a acção se concentra numa única noite, mais concretamente durante um jantar de gala para entrega de um prémio literário instituído por um dos grandes banqueiros do capitalismo socialista dos anos 80 e princípios de 90. A narrativa vai acompanhando os diversos convivas, estabelecendo retratos irónicos das grandezas mas sobretudo das misérias dos respeitáveis. Cada capítulo organiza-se quase como se fosse o andamento de uma composição musical, talvez de uma sinfonia, ou um concerto para solista e orquestra. Há envios para as diversas horas desse dia que antecedem e preparam os acontecimentos que se desenlaçam durante a gala, num dos maiores hoteís de Madrid. Assim, todo o livro se passa num período de 24 horas, ou pouco mais, entre os momentos em que Pepe Carvalho chega e parte de Madrid, tendo os serviços do detective catalão sido contratados pelo próprio banqueiro filantropo. Sob a mira critica de Montalbán estão duas classes distintas, que o dinheiro uniu: por um lado os banqueiros e empresários, por outro os escritores (desde um prémio Nobel àquele cinquentenário que é considerado a mais velha promessa literária de Espanha), os críticos literários, os editores, enfim, todas as pessoas que de algum modo estão ligados ao negócio dos livros e da literatura.

(Pus lá em cima uma foto da capa de uma edição espanhola, porque não encontrei nenhuma foto da edição portuguesa. De qualquer modo li o livro em tradução portuguesa, numa edição da Caminho.)