November 28th, 2010

rosas

eu sou a minha própria mulher

Fui ontem, de modo inesperado, ao Teatro da Cerca de São Bernardo, ver Eu Sou A Minha Própria Mulher, da autoria do dramaturgo norte-americano Doug Wright, produção da Seiva Trupe, com encenação do João Mota, e uma interpretação em tour de force de Júlio Cardoso. Aliás a peça assinala os 50 anos de carreira de Cardoso que, septuagenário, aguenta hora e meia em palco interpretando mais de 30 personagens.

Podemos começar por aqui. A peça conta a história, verídica, de um alemão, nascido no final dos anos 20, que desde os quinze anos decide viver como mulher, Charlotte Von Mahlsdorf, atravessando e resistindo ao horror nazi, ao desmoronar da Alemanha, à chegada dos russos e dos norte-americanos, e a longos 40 anos de repressão da Stasi, a polícia secreta do regime totalitário da Alemanha de Leste, tudo isto mantendo um museu de móveis antigos que esconde na cave um cabaret para homossexuais. O mais interessante na peça, ou pelo menos nesta produção da Seiva Trupe, é que o actor vai compondo as personagens que atravessam a vida de Charlotte não a partir do seu próprio corpo, de actor, mas da própria personagem. Cardoso nunca sai do personagem, mesmo quando está a fazer de oficial das SS ou de torcionário da Stasi, e é sempre a ela que regressa. E aquilo que poderia parecer estranho ou mesmo um pouco bizarro, um homem velho a fazer de mulher a fazer de homem, resulta completamente, sobretudo por causa do modo, pouco artificioso e armado de uma dose de ternura, como Júlio Cardoso veste Charlotte. Eu Sou A Minha Própria Mulher é, portanto e em primeiro lugar, um excelente trabalho de actor, que merece todos os encómios.

Sendo uma peça de dramaturgia norte-americana (o que quer que isso signifique), não pode deixar de ter um subtexto político, naquele género ‘off-Broadway comes to Broadway’. Assim, é evidente o esforço queer do texto, servindo-se da vida de Charlotte para confrontar o que foi a repressão dos homossexuais ao longo do século passado e até, de certo modo, ainda que não muito profundo, questionar, sociologicamente digamos, o que foram os gay lifestyles ao longo da décadas do século. Aqui os kudos vão para a Seiva Trupe: não é frequente ver nos palcos portugueses (ou se é normal não vêm em digressão pela província) peças deste teor, que levantam questões e abordam problemas que não interessam à maioria dos portugueses (pelo menos aos da maioria silenciosa), e onde a agenda homossexual não passa das discussões sobre o casamento e, agora, a adopção. Neste aspecto, Eu Sou A Minha Própria Mulher constitui uma rara oportunidade de ver num palco nacional discutidos assuntos que têm a ver com a condição homossexual.

Mas para mim o aspecto mais interessante da peça foi mesmo conhecer a personagem de Charlotte Von Mahlsdorf e a sua extraordinária vida. Habituados a pensar dentro das caixinhas da nossa vida de classe média, esquecemos que há pessoas, muitas pessoas, que levam as suas vidas, de cabo a raso, a tentarem ser elas próprias, contra ventos e marés, nas condições mais adversas. Sem angústias e sem desespero, por um lado, mas também sem nenhum espírito de luta política, por outro, com as grandezas e misérias iguais às de qualquer outro mortal, a única coisa que Charlotte quer, pelo menos tal como nos é apresentada na peça, é viver a sua vida, rodeada dos seus objectos, dos seus amigos, das suas recordações, até do seu passado. Assustada com a repressão das SS, levantando bem alto o som do seu gramofone para os bombardeiros aliados ouvirem que ela escutava discos americanos e ingleses, tentando enganar a Stasi e eventualmente descaindo na infâmia da delação, ou maravilhando-se com a generosa oferta dos bares gay da Berlim pós-queda do muro, Charlotte é uma resistente, no sentido mais verdadeiro e humano da expressão: alguém que apenas quer viver a sua vida, nos termos que ela própria escolheu.