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"Sim, mas esse era o Saramago que eu achava que haveria. Não era só o filho da mãe comunista, ateu e traidor à pátria. Portugal é um país complicado. Somos injustos. O que não se perdoou ao Saramago foi que ele tivesse sucesso. Veio de família pobre, não pertencia às elites, começa a escrever aos 60 e aos 80 ganha o Nobel. De onde veio este tipo? Isso não se perdoa. E como o sucesso do outro espelha a nossa inacção, começámos a destruir o outro para nivelarmos por baixo. É sempre um processo de destruição colectiva. A puxar o país para baixo.
O Saramago era polémico. Há coisas que ele defendia e com as quais não concordo. Não suporto, por exemplo, qualquer teoria iberista. Agora, era um provocador nato. E temos de agradecer aos deuses. Quando ele escreveu 'Caim', em 2010, tivemos em horário nobre na TV teólogos a discutir a existência de Deus. Isto não é um privilégio numa época de estupidificação total? Não devemos agradecer opor isso? Ele punha as pessoas a pensar. Devemos-lhe muito."


- Miguel Gonçalves Mendes, entrevista ao Público, Ipsilón, 19.11.2010