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Miguel Pinheiro acaba de publicar, na Esfera dos Livros, uma biografia de Sá Carneiro, Francisco Sá Carneiro, o primeiro-ministro de Portugal que, faz no próximo dia 4 de Dezembro 30 anos, morreu quando a avioneta em que se deslocava, explodiu no ar poucos segundos depois de levantar voo do aeroporto da Portela. Mais do que a própria figura do primeiro-ministro, têm sido as circunstâncias da sua morte que têm dominado o debate público nestas três décadas: primeiro vigorou, para além de qualquer dúvida, a tese de que o desastre foi um acidente (variando entre duas teorias, a de avaria mecânica ou a de negligência do piloto); depois, a partir da investigação particular de algumas pessoas e dos resultados de consecutivas comissões parlamentares de inquérito, tem vigorado a tese de que um atentado terá estado na origem da explosão. A dificuldade na afirmação desta tese tem, sobretudo, derivado do facto de nunca ter ficado estabelecida a motivação para o crime (mais até do que a sua autoria). A tese dominante põe outra vítima do desastre, o então ministro da defesa Adelino Amaro da Costa (do CDS) como alvo do atentado, mas mesmo aqui dividem-se as teses, entre as que falam em negócios de armas furando bloqueios internacionais, e as que sustentam que o ministro estava no encalço de uma vigarice no seio das forças armadas.

Confesso, à laia de declaração de interesses, que Sá Carneiro nunca foi santo do meu altar, sobretudo quando era vivo (sim, eu sou assim tão velho), em que eu estava politicamente do outro lado da barreira ideológica. Não posso dizer que tenha ficado satisfeito com a sua morte, claro que não, foi um dos acontecimentos mais chocantes da história recente de Portugal. Mas na época o confronto político ainda era muito vivo, mesmo agressivo, de forma que achei uma certa graça ao grafiti que apareceu, logo na manhã seguinte ao desastre, numa parede junto à cantina das Químicas, na universidade de Coimbra: Hoje há Torresmos!

Diga-se, em abono da justiça, que para esse clima de agressividade com que era vivida a política em Portugal em 1980 Sá Carneiro era um dos principais contribuintes, travando um combate sem tréguas contra a influência do partido comunista e, sobretudo nos anos que precederam a sua morte, contra a influência dos militares na vida política portuguesa, na sequência do papel decisivo do Movimento das Forças Armadas desempenhou na mudança do regime político em 1974.

Por todas estas razões, e pela memória que guardo de todo este tempo que, face ao que é a vida actual, parece de facto tão ‘last century’, tinha muito interesse e curiosidade em ler esta biografia, tanto mais que ela se apresentava como a primeira grande tentativa de escrever, de forma mais ou menos distanciada e com fôlego ambicioso, uma biografia de vocação popular sobre uma das figuras determinantes do passado recente português, e que não baseava a sua autoria no testemunho pessoal. E o livro cumpriu integralmente essa promessa. Trata-se de uma obra sólida, bem construída, baseada num trabalho de pesquisa aturadíssimo (quase duas centenas de páginas de notas a identificar as fontes das informações), tão atenta ao vertiginoso percurso político de Sá Carneiro, como à sua biografia pessoal e familiar, sem esquecer as circunstâncias da vida íntima e sentimental. Que de resto não foi nada despicienda: oriundo de uma família e de um meio de um catolicismo quase radical, Sá Carneiro protagonizou uma história de amor inegavelmente romântica, ao impor, a uma sociedade conservadora e reaccionária e a um meio político medíocre e retrógrado, a mulher com quem vivia e que considerava a sua mulher, preso que estava a um casamento sem divórcio. Snu Abecassis haveria de perecer igualmente no desastre de Camarate.

O livro de Miguel Pinheiro está longe de ser um livro perfeito. Por vezes a pequena história, a anedota, em que o livro é pródigo (e ainda bem), é demasiada irrelevante para ser contada, quando não mesmo irrisória. Mais importante, fica de fora uma análise sólida do pensamento político de Sá Carneiro, que de algum modo o resgatasse de uma imagem de político demasiado emocional e errático, muitas vezes guiando-se apenas por razões de mera táctica quando não mesmo de revanche pessoal, e atribuísse à personagem a dignidade política que o seu lugar na história de Portugal pós-25 de Abril e na memória colectiva, inegavelmente reclamam. No entanto, nada disto impede que esta biografia de Sá Carneiro, pelo seu conteúdo e pela sua organização, passe a constituir o paradigma e a fasquia da literatura biográfica em Portugal.