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josé e pilar
rosas
innersmile
Vi ainda este fim de semana José e Pilar, o documentário que Miguel Gonçalves Mendes fez com as 240 horas de película que gravou nos quatro anos em que conviveu com o casal José Saramago e Pilar Del Rio. Um filme superlativamente belo, que se vê, de ponta a ponta, com os olhos húmidos de comoção e ternura: pelo amor que une José a Pilar, pelo retrato íntimo que faz de ambos, pelo corajoso desamparo face à proximidade da morte. Em suma, pelo retrato intensa e profundamente humano de dois seres humanos que se alimentam da própria energia do seu encontro.

São inúmeros os momentos raros deste filme, aqueles que nos apetece rever e rever. O olhar do realizador nunca é neutro (quem diz que o documentário não é cinema, porque o confunde com a reportagem, tem aqui a possibilidade de aprender) nem distante, mas também nunca é intrometido: a intimidade do casal mostra-se, mas nunca se desvenda. Mas o que trazemos sobretudo do filme é mesmo o retrato de José e de Pilar. Nunca nos surpreende, não há aqui revelações que nos mostrem aspectos das suas personalidades que desconhecêssemos. Pelo contrário, o José e a Pilar que o filme nos revela são muito fiéis à imagem que deles tínhamos. O que nos surpreende e agarra é como José e Pilar são tão iguais a si próprios e, nessa medida, a todos nós. Um homem nunca é aquilo que ele projecta nos outros, nem aquilo que os outros nele vêem: um homem é como é, é o que é, e a magia do filme de Miguel Gonçalves Mendes é criar em nós a ilusão, o artifício, de acreditarmos que o que vemos no filme é a verdade, é a essência. E isso, como se sabe, não é nada pouco. Aliás, é a essência do cinema.

Só mais um ponto. Se o filme inclui imagens feitas em Espanha, em Portugal, no México, no Brasil ou na Finlândia, José e Pilar é sobretudo (e é também, no que ao tema diz respeito) um filme sobre a extraordinária ilha de Lanzarote. O olhar do realizador está sempre a fugir às suas personagens humanas, digamos assim, para ir à procura dessa outra personagem geográfica, onde parece buscar um sentido, uma matriz que lhe possa servir para confrontar o mistério da pessoa Saramago. Adorei ver a ilha, vê-la desta maneira. E como sempre pagamos o preço das nossas decisões mais imbecis, quase morri de desgosto pela oportunidade desperdiçada de ter ido espreitar a casa de Saramago, e visitado a sua biblioteca, o seu escritório.

Quando vinha a sair do cinema, ouvi, atrás de mim, um casal já de uma certa idade comentar que este filme é daqueles de que saímos diferentes de quando entrámos. É sim senhor, é isso mesmo.
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