November 14th, 2010

rosas

a leoa branca



A Leoa Branca foi o primeiro livro que li de Henning Mankell, um dos precursores do policial nórdico, nomeadamente da Suécia, que, na senda dos livros de Stig Larsson, está agora tão em voga. E a avaliar por este livro Mankell é não só precursor, mas verdadeiro expoente. Como se sabe, o segredo da literatura policial não está tanto no engenho da trama, mas muito mais no domínio e na sofisticação da narrativa, é por esta que nos prendemos muito mais do que pelas peripécias da história. E Mankell é um escritor seguríssimo, a escrita é de uma eficácia absoluta, visual, sem dúvida, mas sobretudo atmosférica. O herói da história, Kurt Wallander, detective da polícia numa pequena cidade do Sul da Suécia, é outro dos trunfos do livro, raramente me lembro de ver uma personagem tão verosímil, com tanta espessura e densidade, longe de um certo psicologismo de algibeira tão vulgar nos romances policiais.

Sem abrir muito da história, o livro segue duas tramas em paralelo. Na Suécia, Wallander investiga a estranha morte de uma mulher, metodista e agente imobiliária, feliz e modesta mãe de família, que é assassinada, com laivos de execução, sem nenhum motivo aparente. Ao mesmo tempo vamos acompanhando os preparativos conspiratórios da tentativa de assassínio do mais importante líder negro sul-africano, numa época, 1992, em que De Klerk é ainda presidente da África do Sul e acaba de libertar Nelson Mandela da prisão de Robben Island, após décadas de encarceramento político. A maneira como estes dois acontecimentos, ocorrendo em lugares antípodas do mundo, se entrelaçam, preenche as quase quinhentas páginas do livro, que se lêem, obviamente, com sofreguidão e urgência.

A título de curiosidade, Mankell apresenta uma biografia deveras curiosa. Para além de autor de livros policiais, é ainda autor de livros infantis e dramaturgo. Já há alguns anos, creio que desde meados dos anos 90, é director artístico do Teatro Avenida, em Maputo, passando cerca de metade do seu tempo em Moçambique. O facto de ser um verdadeiro best-seller não o impede de ser um emprenhado activista político. Mankell estava a bordo da flotilha humanitária que, em Maio deste ano, tentou quebrar o embargo israelita ao território de Gaza, e que foi atacada pelas forças do exército de Israel, tendo Mankell sido deportado para a Suécia. É casado com a filha do falecido realizador de cinema Ingmar Bergman.