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o coração da cidade
rosas
innersmile
Acho um bocado ridículo chamar-lhe o senhor do adeus. Parece, pelo menos assim me soa aos ouvidos, que se está a institucionalizar uma coisa que é do reino do inexplicável, do absurdo, do que foge à normalização social: havia um homem, já velho, que, à noite, vestido de uma dignidade um pouco decadente, ia pôr-se na esquina do Imaviz, ali defronte do Fórum Picoas, na esquina onde começa a 5 de Outubro, a acenar com a mão aos automóveis que passavam. Numa época, anos 90, em que eu ia muito a Lisboa aos fins de semana, e ficava quase sempre em hotéis na zona do Saldanha e das Avenidas Novas, o homem devolvia a quem passava o conforto de uma certa loucura urbana, normal. Lisboa, na pessoa de um homem chamado João, que à noite acenava a quem passava, era uma cidade cosmopolita, sofisticada, exótica. Cheia do brilho húmido das luzes dos semáforos na calçada polida e do sorriso Cheshire do homem do Imaviz, o coração de Lisboa era, ainda que por breves instantes, essa esquina na madrugada.

Amanhã, naquelas páginas que os jornais reservam para os fait-divers e as coisas sem importância, há-de vir a notícia da sua morte.