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sunday morning
rosas
innersmile
Ontem, manhã cedo, apanhei em Coimbra-B o Intercidades que vinha da Guarda, para Lisboa-Oriente. Mal me sentei, saquei do livro que me anda a prender, e mergulhei na leitura, mais um policial sueco, a acção dividida entre o sul da Suécia e a África do Sul. Já a viagem ia longa, comecei a ouvir o ruído da conversa que se desenrolava duas cadeiras atrás da minha. Tentei virar a cabeça para ver quem era, mas só vi, em pé no corredor, de costas, a figura alta de um homem velho, metido numa gabardina cinzenta, agarrado a uma muleta canadiana. Conversava com duas senhoras, igualmente idosas, que seguiam sentadas. A conversa era sobretudo com uma delas. Não consigo reproduzir a conversa, como é óbvio, mas quando comecei a prestar atenção, o homem declarava que já se via a ponte de Santarém. A mulher comentou que o homem devia ter visto muitas pontes destas na sua vida. O pretexto prestou-se a alguns mal-entendidos, mas ela chegou ao ponto onde queria, dizer que o homem tinha passado a vida nos barcos. Ele confirmou, uma vida passada a bordo dos grandes paquetes que foram frota nacional. Que visitou o mundo todo. As três Américas: do Norte, do Sul e Central. E África, até ter chegado a Lourenço Marques, onde ficou dez anos. A senhora também tinha estado em Moçambique, mas não se lembrava do nome da cidade. Trocaram hipóteses: Porto Amélia? Quelimane? Beira? Ilha? Ela lembrou-se: Nampula. Ah, Nampula. Esteve lá catorze anos. Conheceu muita coisa, Nacala, Porto Amélia. Pararam em Porto Amélia, a elogiar a cidade. Ela disse que voltou lá, a Moçambique, há dois meses. Tem um genro que está lá a trabalhar. A conversa prosseguiu por outros caminhos, e eu tentei concentrar-me de novo na leitura. Mas a espaços fugia-me a atenção para o diálogo. O homem tinha oitenta e oito anos. Viva sozinho. Era viúvo há vinte e um anos. A filha queria que ele fosse viver com ela, mas ele não conseguia, não era a casa dele, não podia mandar em nada. Preferia viver sozinho, na casa dele. Todos os dias o lar da Santa Casa da Misericórdia ia a casa levar-lhe o almoço, e uma vez por semana iam duas senhoras fazer a limpeza da casa. Agora ia apanhar o autocarro. Já não me lembro bem, o cinquenta ou o quarenta e quatro. Os dois paravam no Relógio, mas ele preferia um deles porque o outro virava à esquerda, e ele queria sair na paragem a seguir ao Relógio, para não ter de subir a rampa para o bairro. Assim, saía mais à frente, mas o caminho era sempre plano. Quando o comboio parou na gare do Oriente, formou-se uma longa fila no corredor, à espera que terminassem as manobras. O homem desceu, com grande dificuldade, uma das senhoras desceu para segurar a bagagem que a outra lhe passava. Quando finalmente desembarquei do comboio, o homem já estava, sozinho, uma mão a segurar o punho da canadiana, a outra a arrastar o trólei da mala, junto ao elevador da estação.
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