November 6th, 2010

rosas

the social network

O David Fincher é um excelente realizador de cinema, apresentando uma obra muito coerente do ponto de vista narrativo. Com Benjamin Button, um filme de que não gosto muito, Fincher afastou-se do thriller, o género que marcou a sua estreia no cinema, e agora The Social Network vem confirmar essa deriva para os terrenos mais fluidos do drama.

Apesar de se apresentar no cone de aspiração da enorme popularidade do Facebook, o filme de Fincher é sobretudo uma história de ambição e sucesso, focalizando-se nas disputas judiciais que Mark Zuckerberg teve de travar para assegurar a autoria do Facebook. É curioso que as reuniões entre partes litigantes, que fazem a parte mais substancial dos filmes e das séries de advogados, são tão essenciais ao sistema judicial norte-americano, porque servem literalmente para contar espingardas, em termos de hipóteses de vitória em julgamento, e definem negocialmente os termos de um acordo de não-litigância.

Há duas coisas que não me agradaram no filme de Fincher, o que, no entanto, não prejudicou o prazer cinéfilo. Uma coisa é gostar-se de um filme, outra é desafiar as suas premissas. A primeira coisa que me desagradou foi o modo como o filme trata as suas personagens. Um olhar desencantado, pós apocalipse capitalista, que aposta tudo na psicologia das personagens, nas suas inconfessáveis e sórdidas motivações. Ninguém (mas uns mais do que outros: Zuckerberg e Sean Parker são os principais alvos) escapa à acusação de cinismo, to say the least, mas o próprio olhar que julga as personagens não deixa de ser ele próprio um pouco cínico: não há rapazes maus, e não querer ver isso não deixa de ser uma simplificação injusta, just for the sake of the argument (trocadilho intencional). Diria, numa sentença a la Zuckerberg, que uma coisa é pretender criar uma rede social para engatar raparigas e ter acesso aos clubes mais exclusivos; outra completamente diferente é ser capaz de a criar.

Por outro lado filme apenas toca lateralmente (e como não poderia deixar de o fazer) os aspectos mais interessantes que se prendem com o Facebook e as redes sociais em geral, que são os aspectos políticos. As redes sociais não são apenas proezas de desenvolvimento tecnológico, de criatividade colegial, nem (enormes) oportunidades de negócio, capazes de tornar rapazes de 20 anos em milionários. Elas estão a moldar as formas de interacção social, de relacionamento humano, e de formação de consciência social. E nesse aspecto o Facebook é de facto o paradigma. Dir-se-ia que este aspecto não era o que interessava ao filme, e isso é claramente verdade. Mas não deixa de ser um desapontante desperdício, estar a olhar para o mais intrigante fenómeno da última década (em termos que ultrapassam muito a simples dimensão das tecnologias da informação, nomeadamente as de carácter mais recreativo), e não tentar ver aquilo que nele é essencial no que respeita à natureza humana.