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parágrafo 175
rosas
innersmile
Vi no computador, um destes dias (aliás, vi duas vezes, em dias seguidos), um curto documentário intitulado Paragraph 175, da autoria de Rob Epstein e Jeffrey Friedman. Epstein foi o autor de The Times of Harvey Milk, o documentário que resgatou a importância de H. Milk na luta pelo reconhecimento dos direitos dos homossexuais, e, já em colaboração com Friedman, de dois outros documentários famosos: Common Threads: Stories from the Quilt, feito em 1989, sobre o impacto da SIDA, e de The Celluloid Closet, sobre a representação da homossexualidade no cinema, em particular no da época de ouro de Hollywood. Entretanto vai estreando por estes dias a última obra da dupla, Howl, uma biopic sobre o poeta Allen Ginsberg.

Em The Paragraph 175 os autores partem de uma série de entrevistas feitas pelo historiador Klaus Muller a uma série (pequena e, pelos motivos óbvios, em vias de extinção) de sobreviventes de campos de concentração nazis que foram aprisionados (e em muitos casos torturados) por serem homossexuais. O parágrafo 175 é o artigo do código penal alemão que, entre 1871 e 1994, com maior ou menos virulência, criminalizou a prática da homossexualidade. Durante o nazismo a interpretação do artigo foi particularmente insidiosa, pois serviu para tudo, nomeadamente para perseguições políticas, através de uma interpretação que penalizava as meras suspeitas.

O filme faz uma breve história da vivência social da homossexualidade na Alemanha entre guerras, nomeadamente na tolerante república de Weimar, e de como a formação do partido nazi é muito devedora das SA de Ernst Rohm, amigo pessoal de Hitler e homossexual assumido. Em 30 de Junho de 1934, na célebre noite das facas longas, Hitler decepou toda a possível concorrência dentro das estruturas do partido nazi. Rohm foi preso, e mais tarde executado, e a sua degenerescência moral foi usada como pretexto para a sua eliminação.

Seguidamente toda a atenção do documentário é dirigida para as entrevistas com os sobreviventes, que falam da sua vida anterior à ascensão do nazismo, das circunstâncias em que foram presos, e da terrível experiência dos campos. São testemunhos pungentes, entre os quais o de Pierre Steel, falecido em 2005, e que foi o único francês a assumir que tinha sido deportado para os campos por causa de ser homossexual.

De resto, o aspecto mais comovente dos depoimentos tem precisamente a ver com a forma como estes homens viveram o pós-guerra, em que ao trauma da experiência nos campos de concentração se sobrepôs a vergonha social por causa da sua condição sexual. A maior parte deles viveram vidas dissimuladas, em que o assunto nunca foi discutido, nem no seio mais íntimo das famílias, pois falar da sua experiência da guerra seria equivalente a assumir que eram homossexuais.

Trata-se de um filme belíssimo, forte e comovedor, que tenta resgatar do olvido a vida destas pessoas que tanto sofreram, e nunca tiveram direito a qualquer reparação, nomeadamente de carácter moral. Se eu mandasse, este filme era de visionamento obrigatório nas escolas.
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