November 2nd, 2010

rosas

o deus das pequenas coisas



Faltam-me poucas dezenas de páginas para terminar a leitura de O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy, e estou encantado. Há muito que tinha vontade de experimentar lê-lo, e a edição recente em formato de bolso (e mais uma recomendação de Maria do Rosário Pedreira, no seu blog Horas Extraordinárias) convenceu-me de que tinha chegado a hora. E em boa hora (trocadilho intencional).

O filme é um relato de uma família indiana em dois momentos distintos: o actual, da narração, e o da infância dos seus principais protagonistas. Estha e Rahel são gémeos dizigóticos e a sua perspectiva infantil marca definitivamente a narrativa, mesmo nos raros momentos em que não são eles os protagonistas da acção. A saga familiar, cheia de tragédias e de uma violência cuja tensão é extrema, destapa, naturalmente, um olhar inquisitivo sobre a sociedade indiana, nomeadamente, mas não só, no que toca ao sistema de castas. A Índia, neste retrato de A. Roy, é um poço de enormes e violentas contradições, em que a modernidade e a tradição protagonizam um conflito sem tréguas. No centro do olhar de Roy está a condição feminina, através das sucessivas gerações de mulheres de uma família.

Por vezes o livro distrai-nos com um excesso de informação e sobretudo de efeitos literários (que são, todavia, utilizados como espécies de mantras que pretendem caracterizar o ambiente do romance), num barroquismo que, em certos momentos, pode prejudicar a economia do texto. Mas isso não impede de por vezes nos depararmos com verdadeiras jóias de precisão, em que das páginas do livro parecem brotar verdades insofismáveis, pedaços, alguns bem pequenos (ou não se tratasse o deus, de ser das coisas pequenas), da vida-como-ela-é.

«- Ammu, quando se está feliz num sonho, isso conta? – perguntou Estha.
- Isso Conta?
- A felicidade… conta?
Ela sabia muito bem o que o seu filho de poupa desarranjada queria dizer.
Porque a verdade é que só conta o que conta.
A sabedoria simples e inabalável das crianças.
Quando se come peixe num sonho, isso contava? Quer isso dizer que se comeu peixe?»