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mistérios de lisboa
rosas
innersmile
É verdade que não foi de ânimo muito leve que fui ver Mistérios de Lisboa, do realizador chileno Raúl Ruiz: quatro horas e meia de filme, ainda por cima com a sessão a iniciar às dez da noite, é dose, e logo eu que defendo que os filmes não deveriam ter mais de hora e meia. Mas ainda bem que fui.

O filme é excelente, mas assim tipo obra-prima. Um aprumo formal rigorosíssimo, com décors e figurinos deslumbrantes e uma banda sonora de realce, uma narrativa fluente que nunca perde o pé na complexidade da trama camiliana, actores bonitos muito bem dirigidos, elegância e subtileza (menos na duração, é claro). O filme cola-se muito ao romanesco, provando que é possível fazer um filme literário, a partir de uma obra literária, procurando adaptá-la com fidelidade, mas que é puro cinema.

O universo camiliano, confesso, não me entusiasma por aí além, mas tudo depende da perspectiva, e se olharmos para esta obra como uma depuração quase perfeita do folhetim, então é possível achá-la divertida e actual. Com efeito reconhecemos em Mistérios de Lisboa a matriz de muita da matéria que faz a ficção nomeadamente televisiva, em particular das telenovelas. E não sei se foi um exercício de ironia ou apenas uma opção de casting encher o filme de intérpretes que vêm directamente das novelas da televisão, mas que resulta, lá isso é indubitável.

O filme de Ruiz tem ainda o mérito de nos pôr a ouvir um português como raras vezes se tem ouvido no cinema, naturalmente dito, sem o tom declamatório de quando se quer fazer uma coisa à séria, nem aquela novilíngua estranha e cheia de calão despropositado quando se querem fazer filmes de ‘grande público’. É que é mesmo isso, o filme de Ruiz põe-nos a ouvir português como se ele fosse uma linguagem de cinema, e não um handicap.

Por tudo isto, o filme é mesmo a não perder, e espantosamente a sala onde o fui ver, apesar da duração da metragem e do avançado da hora, estava muito bem composta. Mas para o caso de faltar a coragem, há uma versão televisiva com seis episódios de uma hora, que, suponho, há-de estar um dia destes a passar na televisão.
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