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brillante mendoza
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Achei uma certa graça à onda de entusiasmo que a crítica cinematográfica mais exigente, demonstrou recentemente pela obra do cineasta filipino Brillant Mendoza, a propósito da estreia em sala do seu filme Lola. É que não deixa de haver uma certa ironia no facto dos referidos críticos incensarem a obra de um realizador que começou a fazer filmes homo-eróticos. De facto, a primeira vez que me lembro de me cruzar com o nome do realizador foi em Barcelona, na livraria Antínous. Ao ver-nos, a mim e a um amigo, a vasculhar as prateleiras do dvd, um dos empregados veio nos sugerir Masahista, precisamente o primeiro filme de Mendoza. Eu acabei por trazer outro filme (o Torch Song Trilogy, que já tinha visto mas queria muito ter) e esse meu amigo creio que trouxe o filme de Mendoza, mas que eu só vi, tempos depois, através da net (até há pouco tempo o filme estava disponível, em partes, no YouTube). Entretanto vi um outro filme de Brillante Mendoza, Pantasya, ainda na fase erótica, mas de que não gostei por aí além.

De certo modo Masahista, apesar de ainda ser muito focado nos códigos do homo-erotismo, como que já anunciava o que veio a seguir e que para mim foi, essencialmente, o Serbis, um filme de que falei aqui no innersmile (link), e que me entusiasmou imenso. Foi de facto, já nem diria uma lufada de ar fresco, mas um verdadeiro vendaval, uma daquelas experiências cinéfilas novas, que nos surpreendem, e que nos conseguem quase viciar. Mais recentemente chegou a oportunidade de ver mais dois filmes de Brillante Mendoza (que esteve em Portugal em Janeiro para uma retrospectiva dos seus filmes, com excepção de Pantasya que foi renegado pelo próprio realizador, a meu ver com razão): Lola, que estreou nos cinemas (mas só em Lisboa, acho eu) e foi editado em dvd, e Kinatay, que foi apenas editado em dvd, ambos de 2009 (Serbis é de 2008, e Masahista de 2005).

Ambos os filmes realçam o que de melhor tem o cinema de Brillante Mendoza, e que é, como é quase sempre, um olhar muito particularizado, muito próprio, uma maneira da câmara seguir os personagens que é ao mesmo tempo distante e íntima, como se ficasse sempre excluída do tumulto interior que os anima, mas como se essa distância tornasse mais pungente a sua condição. Coco Martin, actor de vários filmes do realizador entre eles Kinatay, dá o corpo perfeito a esses personagens, um corpo que ao mesmo tempo se entrega ao mundo, frágil perante as suas agressões, mas que tem um certo carácter estóico, que lhe dá força. Como de resto, aliás, acontece com as duas extraordinárias avós de Lola.

Para além desta relação muito especial com as personagens, tanto Kinatay como Lola nos trazem uma maneira de olhar o mundo muito marcadamente social, mas em que a miséria, a pobreza, a agressão capitalista, convive com uma enorme pujança, com uma inabalável vontade de sobreviver. Não há absurdo no mundo visto pela câmara de Mendoza porque de certo modo todo o absurdo, todo o horror da miséria, todas as dificuldades, são vistas e vividas pelas personagens como mais um obstáculo a vencer na luta pela quotidiana sobrevivência. Muito do fascínio das histórias de Brillante Mendoza resulta de um contraste muito marcado entre a erosão extrema de um mundo cada vez mais difícil e a dignidade das personagens, que nunca a perdem mesmo quando são obrigadas a empurrar os limites do que é moral. Este olhar tem de facto um paradigma definitivo em Lola, quando duas avós, a de um neto assassinado e a do neto assassíno, chegam a um acordo que, não obstante ser moralmente dúbio (o perdão em troca de dinheiro), é feito com tanta superioridade de intenções e até com tanta elegância de gestos, que adquire traços de nobreza.

Há inúmeras razões para gostar dos filmes de Brillante Mendoza, e muitas delas passam pelos contrastes, pela maneira como quase em cada plano, convivem a beleza e a miséria, o sórdido e o sublime,e de como esses contrastes contaminam o próprio formalismo da narrativa, ora feérica ora demorada, ora luminosa ora obscura, ora próxima ora distante, ora viva e transbordante ora triste e melancólica. Mas acho que de todas essas coisas, o que mais nos faz gostar dos seus filmes, é o olhar profunda e intensamente humano, o amor, frágil, terno e comovente, com que a câmara de Brillante Mendoza olha os seus personagens.
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