October 26th, 2010

rosas

ervilhas com ovos escalfados



«Certa noite, depois de jantar uma bela pratada de ervilhas com ovos escalfados, sentou-se na cozinha a ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, numa primeira edição, de 1881, e adormeceu. Apareceu-lhe um tigre:
Você é daqui ou de outro instante?, perguntou-lhe o animal.
Júlio Branquinho hesitou. O tigre luzia à sua frente, cor de lume, com belas riscas negras, uns olhos amarelos, firmes e intensos, que se espetavam nele e o atordoavam.
Que outro instante?
O tigre sorriu, benévolo, magnífico:
Há infinitos instantes, explicou. Neste eu estou um tigre. Tu, um homem. Noutro tu estás um tigre e eu um homem. Num seguinte estou eu uma larva e você o pássaro que me devora. Estás depois um peixe e eu o pescador. Nada existe que não possa ser a cada momento algo diverso.
Júlio Branquinho acordou indisposto. Prometeu a si mesmo que não voltaria a jantar ervilhas com ovos escalfados. Pensou melhor. Prometeu a si mesmo que não voltaria a ler um romance de machado de Assis, à noite, depois de comer uma bela pratada de ervilhas com ovos escalfados.»


- José Eduardo Agualusa, MILAGRÁRIO PESSOAL