October 18th, 2010

rosas

chaos by white



Terminei a leitura de Chaos, mais um livro do Edmund White, que encontrei à venda em inglês numa livraria de Lisboa. Trata-se de uma colecção de textos: um novela, que dá título ao volume, e mais cinco contos, dois deles bastante curtos. Em comum a todos, ou quase todos, os textos, o tema da velhice, a juntar aos temas habituais do White.

Chaos, a novela, é o texto onde mais se identificam as características habituais da escrita de Edmund White, nomeadamente o seu carácter auto-biográfico. Quer dizer, não sei se o que lá está corresponde exactamente à biografia do autor, mas um dos seus talentos é precisamente esse, escrever com uma voz tão verosímil que somos levados a acreditar, ou a aceitar vamos lá, que aquilo de facto corresponde à vida do escritor. Há, neste tipo de registo que é habitual em White, uma quase total identificação entre autor e narrador. Como disse, não sei se se trata de pura biografia disfarçada de ficção, nem isso é importante; o que importa é mesmo a qualidade do artifício literário, e, evidentemente, o que isso fornece ao leitor. Chaos é um relato por vezes pungente, sobre o processo de envelhecimento, sobre o modo como nos vamos aos poucos adaptando às limitações da velhice, mas sobretudo como o modo como se resiste (ou não) psicologicamente a todas as transformações que vêm com a idade e ao facto de termos de lidar com a decadência física e com a perspectiva do fim. Tudo isto feito com o desassombro e a crueza habituais em White, nomeadamente no que diz respeito ao sexo.

Como disse, este registo muito auto-biográfico é habitual em Edmund White, e dominado com mestria, mas não é o único, e os restantes textos desta edição aí estão para o provar. Gostei particularmente do conto The Good Sports, que conta a história de uma casal de amigos, ela inglesa ele americano, que decidem ir passar a reforma para uma ilha grega. Grande parte do conto centra-se numa visita à Turquia que ambos fizeram, e que se prestou a todo o tipo de equívocos. Trata-se de um texto belíssimo acerca da amizade, ou melhor do amor sem sexo, e dos seus limites.

O livro lê-se num instatinho (eu li-o praticamente em dois fins de semana) e é mais uma obra imperdível do Edmund White, que é, cada vez mais, um dos meus autores preferidos. Como acabei de ler o livro na livraria, aproveitei e comprei logo outro para começar a ler. É incrível como no espaço de cinco ou dez minutos, o tempo que leva um tipo passear pelas estantes, escolher um título, pagá-lo e voltar a sentar-se à mesa a ler, é incrível como num espaço de tempo tão curto parece que viajámos de um universo para outro, não tanto por causa das temáticas, mas sobretudo por causa da diversidade dos universos narrativos e, principalmente, imaginários.