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samuel steward e phil andros
rosas
innersmile
Já aqui tenho falado do blog Band of Thebes, que é dos meus preferidos, não só pelo prazer da leitura, mas pelas inúmeras descobertas, sobretudo literárias, que me tem proporcionado nos últimos tempos. Assim, e que me lembre de repente, foi o livro The Twin, de Gerbrand Bakker, a notícia da edição do volume de correspondência do Bruce Chatwin, e agora a notícia de que Mario Vargas Llosa, o prémio Nobel da literatura, vai publicar um livro sobre Roger Casement. E foi, também um destes dias, a notícia de que foi publicada uma biografia de Samuel Steward, da autoria de Justin Spring, um livro que tenho de encomendar com urgência.

Quando comecei a frequentar as livrarias gays de Londres, sobretudo a Gays The Word e a Zipperstore, tinha muito pouca informação acerca de autores homossexuais. Refiro-me a um tempo em que não havia net, e as fontes de informação eram raras e indisponíveis. Escolhia os livros quer pelas raras referências em revistas igualmente inglesas (a Time Out londrina era uma fonte importante), pelas folheadelas rápidas nas estantes (desenvolvi um talento razoável para detectar livros que me interessavam), e até pelos métodos mais prosaicos: as capas, a sonoridade dos títulos ou do nome dos autores, ou pelo efeito de repetição: autor que tivesse muitos livros e ocupasse um espaço razoável na estante da livraria, é porque devia ser importante. Foi assim que peguei no meu primeiro livro do Phil Andros. Já não me lembro qual deles, mas foi um verdadeiro coup-de-foudre.

O Phil Andros é um pseudónimo (coisa que na altura eu desconhecia), e a personagem dos livros que ele próprio narra. São livros que suponho entrem na categoria de pornográficos, ou pelo menos, eufemisticamente, eróticos, mas foram os primeiros, e se calhar os únicos, ou os muito raros, livros porno que li que tinham verdadeiro estofo literário. Foi a qualidade da escrita, e a eficácia que ela conferia à narrativa, que me prendeu às novelas e aos contos que, aos poucos, fui comprando em livros de pequeno formato, com capas baseadas em desenhos do Tom of Finland (outro actrativo importante). Os últimos que comprei tenho ideia de ter sido já na secção de livros em segunda mão da Gay's The Word. O esquema narrativo dos livros é sempre o mesmo: os encontros e as aventuras, cujo teor se imagina, que Phil Andros vai tendo, ele que ora é um hustler, ora um motorcycle boy, ora uma série de outras figuras do imaginário homo-erótico. Lembro-me de aí por meados dos anos 90 ter pela primeira vez navegado na internet, numas férias, no computador de um familiar. Um dos primeiros sites que descobri foi o da Amazon, e assim que aprendi a funcionar com o botão de pesquisa pus-me à procura de livros do Phil Andros. Isto passava-se, juro!, no escritório de uma oficina de automóveis.

Não consigo precisar quando é que descobri que Phil Andros era o pseudónimo de Samuel M. Steward, e foi obtendo informação acerca do autor, mas creio que já deve ter sido na era da net. Que tinha sido um professor universitário, carreira que abandonou para se tornar um artista de tatuagens em Chicago, cidade que trocou por São Francisco mesmo a tempo da grande revolução (homo)sexual do norte da California. Que tinha sido um expatriado americano em Paris, onde privou (nos vários sentidos do termo) com inúmeras personalidades e foi amigo de Gertrud Stein e da sua companheira Alice B. Toklas (foi por causa do Samuel Steward que eu li a G. Stein). Colaborou com o famoso sexólogo Alfred Kinsey, nomeadamente com o testemunho das suas próprias experiências. Kinsey, para quem não sabe, e simplificando muito, foi assim uma espécie de pai da aceitação da homossexualidade pela sexologia, ao considerar que a heterossexualidade e a homossexualidade não eram realidades diversas, mas posições extremas do mesmo eixo, situando-se a maior parte das pessoas num ponto qualquer ao longo desse continuum, ou seja, somos todos mais ou menos bissexuais.

Tenho em casa talvez uma dúzia de livros de Steward, entre as novelas de Andros, e títulos do próprio autor: um volume de correspondência trocada com Stein e com Toklas, que contém um longo prefácio (auto)biográfica; duas ou três novelas policiais, um romance que tem por tema o meio dos expatriados parisienses. Em todos os livros a homossexualidade está presente, e, deve ser dito, sempre de um modo não envergonhado, mesmo celebratório, sobretudo do prazer da própria experiência sexual. Samuel M. Steward é uma personagem fascinante, uma daquelas vidas que parecem grandes demais para serem verdadeiras. Foi muito importante para mim, porque me ajudou a perceber que ser homossexual não tem de ser uma vivência obscura e medrosa, e que o prazer do amor e do sexo com outros homens pode ser uma coisa que fortaleça, e não que fragilize. Steward faz parte da minha galeria pessoal de heróis. Razões mais do que suficientes para eu ter de deitar o mais rapidamente possível a mão à sua biografia.