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douglas sirk
rosas
innersmile
Há anos que eu andava de olho numa caixinha de dvd's que se vende naquela cadeia de lojas com nome de ar condicionado. Quatro filmes do Douglas Sirk. Mas como custava uma pipa de massa, andei todo este tempo à espera de melhores dias, que finalmente chegaram. Lembro-me dos filmes do Douglas Sirk desde há muitos anos, nomeadamente das cores do outono em All That Heaven Allows. Mas foi só com o filme Far From Heaven, de Todd Haynes, que prestei mais atenção ao realizador de origem alemã a quem o cinema de Hollywood deve ter cristalizado de forma tão pura os códigos do melodrama.

A caixa traz quatro filmes, ou cinco se considerarmos que Magnificent Obsession é um remake de um filme da década de 30, e que vem como extra. Dois deles são os já referidos Sublime Expiação e Tudo o Que o Céu Permite, realizados em 1954 e 1955, e com a mesma dupla de actores, Jane Wyman, que foi a mulher de Ronald Reagan nos seus tempos de actor de cinema, e Rock Hudson, o celebrado heartthrob e galã que veio a ser uma das primeiras vítimas conhecidas de Sida, facto que o revelou como homossexual empedernido mas devidamente armarizado. São dois filmes magníficos, muito perto do estatuto de obras-primas, e que têm uma depuração formal, estilística e temática tão grande, que não há outra maneira de olhar para eles se não como clássicos absolutos. Os filmes foram recebidos originalmente como melodramas muito puxados, de uma sentimentalidade exacerbada e até irrealista, mas hoje conseguimos olhar para eles de uma outra maneira, observamdo que por detrás dessas histórias muito sentimentais está um olhar, não sei se crítico mas pelo menos inquisidor, sobre sociedades, como a americana, sobretudo dos anos 50, muito dominadas por códigos sociais muito estritos e severos, que representam um forte constrangimento à liberdade individual, nomeadamente aquela que é ditada pela pulsão amorosa.

Aliás é por estes dois aspectos, como nos ajudam a compreender os extras que acompanham estas edições dos filmes, e pelo seu rigor estilistico, que Sirk tem sido amado por alguns inesperados realizadores de cinema, como foram o caso já mencionado de Todd Haynes, mas sobretudo o do realizador alemão Rainer Werner Fassbinder, de quem vi inúmeros filmes ali entre finais da década de 70 e inícios dos anos 80.

Os outros filmes da caixa de Sirk, não sendo tão bons são todavia interessantes, tendo ambos sido realizados em finais dos anos 50, portanto já depois dos outros dois. The Tarnished Angels (O Meu Maior Pecado), ainda com Rock Hudson, baseia-se num livro de W. Faulkner, e centra a sua atenção na América dos losers, os que perseguem, mas sempre do lado de fora, o sonho americano. O que mais gostei do filme foi de um preto-e-branco lindíssimo, que Douglas Sirk utilizou para dar ao filme uma atmosfera mais parecida com os anos da grande depressão, em que a história se passa.

Finalmente A Time to Love and a Time to Die baseia-se num livro de um dos mais populares autores de livros de guerra, Erich-Maria Remarque, que faz um cameo no filme. Mais uma vez uma situação de uma história romântica num pano de fundo de enorme dificuldade, que pretende ser um olhar humanizado sobre a guerra e os seus horrores, sobre os conflitos interiores que surgem, muitas vezes em contradição com a turbulência do contexto. O filme passa-se em 1944, quando as tropas alemãs (todo a história se passa no lado alemão da guerra, os aliados apenas se ouvem, através do barulho dos motores dos aviões durante os bombardeamentos das cidades alemãs) começam a retirar da frente leste, ou seja no princípio do fim para o pesadelo hegemónico nazi. Apesar de não estarem ausentes representações do mal nazi, a força do filme vem mesmo desse olhar detalhado para o enorme absurdo que se torna a vida em tempo de guerra, mesmo, ou sobretudo, a vida dos civis, dos que não determinam nem fazem a guerra.

Em suma, quatro belíssimos filmes, uns melhores que outros naturalmente, de um dos maiores realizadores do século de ouro do cinema, nomeadamente do cinema norte-americano. Um realizador que vale a pena conhecer, até para perceber muito do que é feito o cinema made in Hollywood. Eu pelo menos fiquei com imensa vontade de ver outros filmes de Sirk, nomeadamente um dos seus últimos filmes, Imitation of Life, com a Lana Turner, e que tem como fundo temático o racismo.
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